"Teu ato mais sublime é colocar outro em sua frente." William Blake

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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Absconso ritual VI


Caravaggio


Estética do Desapego

Beleza, o que seria que me vem?
Nome qualquer que confio ao que agrada,
Se me agrada? Estética de ninguém?
Ou catarse grega experimentada
Como só Narciso concebe bem?
O ideal é que se possa ver
Com olhos longínquos o apresentado.
Bem está em amar e não querer,
Em vigiar para não ser tentado.
Pois a angústia pelo que não consegue
É fado que não há quem o sossegue,
É o desejo inverso a si, fracassado.
---- O que gosto e abdico com destreza
---- É o que se faz presente, se é Beleza.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Absconso ritual V

Francisco Goya


Metafísica Satânica

Quantas vezes é um sonho possível?
Quantos sonhos são possíveis? Um? Dois?
Quantas vezes ilude-se o visível?
Quantos sonhos ficam para depois?

Oh! respondam-me, poetas malditos!
Digam-me do que é feita a Ilusão!
Eu, louco, que comungo dos seus ritos,
Que escrevo incapaz, com sangue na mão,

Os salmos satânicos que aprendi,
A descrição do inferno em que caí
Desde o dia em que me vi a viver!

Quero que me digam essa verdade:
Se é o sonho ou a realidade
Responsável por eu sempre perder!

domingo, 27 de março de 2011

Absconso ritual IV


Fotografia: Natan Henrique de Faria e Sales

Onde andará aquele garoto, aquele mesmo de olhos negros, meio lerdo, que me acompanhava nas discriminações da escola? Onde, onde andará? Onde estará Alexander? Até onde sei, pode estar numa cidade qualquer com os pais ou morando sozinho em Bucarest. Onde quer que esteja, é quase certo que não se lembra mais de mim.

Alexander era filho único. Emigrou da Romênia com os pais. Nunca lhe perguntei nada sobre Chausesco. Mas também, de que valia ter perguntado: com toda certeza ele não foi morto nem maltratado por ele! E, no fim, é sempre isso que importa, é sempre isso que procuramos conseguir: não ser morto. O resto (se gosta ou se não gosta, se é feliz ou não...), o resto é acessório, o resto é enfeite, o resto é o que não é importante.
Estive uma vez na casa de Alexander. Não ficamos em seu quarto jogando vídeo-game. Alexander não tinha quarto. Dormia na sala. Eu não tinha casa, dividia um apartamento com um monte de gente que entrava e saía: um dia dormia com alguém ocupando a cama ao lado da minha, no outro já não estava mais e era outra pessoa que chegava. Mais tarde também pude dormir na sala, mas isso foi mais tarde (depois de eu conseguir um vídeo-game).
Mas falava do Alexander, da vez que estive em sua casa. Antes de chegarmos, paramos num café, ele me pagou uma coca-cola. Ele me falava da Romênia, eu lhe falava do Brasil. Tenho certeza de que não acreditou em uma única palavra que lhe disse sobre o carnaval. Eu também não acreditei que Bucarest fosse linda. Saímos do café, seguimos pela rua da escola até a avenida, andamos por lugares que já não me lembro e chegamos à casa de Alexander. Pegamos a bola e fomos para uma praça.
Era uma praça grande, algumas crianças brincando, uns rapazes jogando bola. Nós ali, inventando um pretexto para nos aproximarmos, inventando um pretexto para nos sentirmos iguais, pois ambos intrusos ali. Quando cansamos, Alexander me pagou um suco (ele me pagava porque queria um suco para ele, como eu não tinha dinheiro para comprar o meu, e ele não queria que eu ficasse olhando, pagava para mim, mesmo eu recusando excessivamente).
Alexander então voltou para a sua casa, para a sua sala. Eu voltei para a pensão, com inveja da sala e do minúsculo apartamento dos pais de Alexander. Queria que minha família também estivesse habilitada assim. Cumprimentei-o normalmente nos dias seguintes, sem que o nosso passeio diminuísse a distância entre nós. Víamo-nos todos os dias, e, excetuando o sorriso sincero, era tudo indiferente.
Hoje, num canto qualquer do interior do Brasil, tapando os ouvidos para os sons de uma noite que para alguns é festa, sozinho no quarto, bate uma saudade danada do Alexander. Onde, onde estará Alexander?
Não sei. Mas hoje, hoje ele estará comigo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Absconso ritual III

Fotografia: Natan Henrique de Faria e Sales

Pagã com flores no regaço

Fiquemos a nos fitar
Sem nos ver mas a olhar,
Prisioneiros do que somos,
A imagem que não fomos,
Que é cinza lançada ao mar.

Colhamos, pagãos tardios,
Sonhos distantes e esguios
Como flores a morrer,
E nos bolsos do Querer
Que sejam desejos frios.

E talvez num fim de tarde,
Quando a pele se nos arde,
Lembremos do que passou,
Cada um no que sonhou:
O que agora é pouco alarde.

Vivamos para Amanhã,
Esta pobre tecelã
De redes de sonhos fúteis.
As palavras são inúteis:
- Calemo-nos, minha irmã.

Absconso ritual II

Fotografia: Natan Henrique de Faria e Sales

Mau conto de fadas

Um dia sonhei –
Coitado de mim!
Que seria rei
Bem antes do fim.

Mas o golpe dado
Levou-me p’ra onde
Não sei que reinado
Outro rei me esconde.

E gira a tormenta
Do reino em fumaça.
Minh’ alma agüenta
Tamanha desgraça?

Perdi-me no sonho
De um outro sonhar,
Meu peito tristonho
É cinza a voar.

Marcaram-me a ferro
E fogo o meu ser.
Se sonho, ainda erro;
Se vivo... morrer!

Recolho o castelo –
Bocados de mim.
Me ponho no prelo
Bem antes do fim.

Absconso ritual I

Fotografia: Natan Henrique de Faria e Sales

O Aedo

Acariciava o Nada,
E nem o Nada existia.
Na tristeza de outra Estrada
Outra vida encontraria
Na palavra desastrada
Que da boca lhe fugia.

A quimera em mil quebrada
Da Noite escura fez Dia.
A canção acelerada
Em roda ritmada ia.
Não ouviu porém chamada,
Se já nada mais ouvia.

Do bastão fez sua espada
E a quem ouvisse dizia,
Da mentira da jornada
Por que ele se perdia.
Sua voz era forjada
Pelo o que a Musa queria.

E cego em sua passada
A caminhar insistia
Numa busca alucinada
Onde ninguém chegaria:
A definição errada
No erro que a definiria.