"Teu ato mais sublime é colocar outro em sua frente." William Blake

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domingo, 26 de junho de 2011

Fumar

Quase dez minutos de intervalo
para minha consciência.
Trago, espero,
a fumaça para meus pulmões.
Depois espirro o trago por entre os dentes
e me divirto com o baile
que o sopro põe a dançar diante mim.
Então, inevitável a

tosse, tosse, tosse,
tusso, tusso, tusso.

Volta a consciência:
merda de tosse!
merda de cigarro!
merda de pulmões!

Pára. E trago de novo
o fumo para meu peito.
Aquilo foi uma dorzinha?
Do lado esquerdo das costas?
Sim, pode ser do pulmão...

Uma merda!

Tosse, tosse, tosse,
tusso, tusso, tusso.

Tenho que parar com isso.
Jogo fora.

Volta a consciência:
merda de vida!
merda de tédio!
merda de dia!

Culpa dela. Por onde anda?
E algo estoura em meu peito!
Será aquela dorzinha?
A do lado esquerdo das costas?
Não, essa é outra: de novo o coração...

Uma merda!
A outra doía menos
e desta me distraía...

Tudo é mesmo uma grande merda!

Me dá um cigarro?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Será que se lembra?

Mais um poema antigo. É sempre divertido ler essas coisas antigas que reencontramos depois de tanto tempo jogadas pelos cantos, esquecidas. Este é de quando tinha 15 ou 16 anos...

SERÁ QUE SE LEMBRA?

Será que você ainda se lembra?
Será que você se lembra de mim?
Será que se lembra do que jogou fora?
Será que se lembra do que disse no fim?
Será que se lembra como eu gritava?
Será que se lembra o que eu disse a você?
Será que se lembra do que lhe guardava?

Será que se lembra e quer se esquecer?

Será que você ainda se lembra?
Será que você se lembra de mim?
Será que se lembra da última hora?
Será que se lembra quando disse que sim?
Será que se lembra como eu te amava?
Será que se lembra o que eu quis fazer?
Será que se lembra do que me matava?

Será que se lembra e quer esquecer?

Hoje serei o que com você não seria?
Hoje serei como queria ser?
Hoje serei o ser que seria?
Hoje serei sendo em você?
Hoje serei um mar que afogou?
Hoje serei o que o fogo queimou?
Hoje serei o que o vento levou?
Hoje serei o que a terra enterrou?

Hoje serei o tempo que pára?
Hoje serei o que ninguém pode ver?
Hoje serei grito que cala?
Hoje serei ou quererei ser?
Hoje serei só solidão?
Hoje serei vinho sem pão?

Será que se lembra e quer esquecer?

Não sou nada que o tempo tratou de apagar.
Não sou nada que o vento tentou sufocar.
Não sou nada que o fogo tentou consumir.
Não sou nada que Deus tentou redimir.
Não sou nada que o tudo quis se apossar.
Não sou nada que o rio trouxe pr'o mar.
Não sou nada que o início tentou acabar.

Não sou nada que possa existir sem te amar.
Não sou nada que suba e não possa cair.
Não sou nada que viva sem pensar em ti.
Não sou nada que ame e quer esquecer.
Não sou nada que morra e não queira viver.
Não sou nada que chova se não te molhar.
Não sou nada que exista se não te amar.

E será que se lembra, mas quer esquecer?
Ou será que se lembra do que era eu e você?

terça-feira, 10 de maio de 2011

O Cavaleiro da Resignação

Sono. Só tenho sono.
Arrependo-me do ter-sido.
Quem me dera retornar ou esquecer.
Voltar atrás,
refazer cada um dos perdidos movimentos
às avessas.
Jogar o corpo para trás
e embalar-me no tecido furado
das redes do infinito.
Inclinar-me,
jogar-me,
Fugir do tempo
para não conviver com a
mentira que não fui.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Dracônico

A noite escura chega e quer me consumir.
O tédio invade meu corpo debilitado.
Do outro lado de tudo a Morte me sorri;
Do outro lado de nada o Sonho fracassado.
------ A angústia pobre, meu desvelo vão,

------ Mostra que tenho ainda coração,
Ou os destroços que dele restam. Amado
Nunca foi, e aos poucos já não sabe sentir
O que outros sentem. As pessoas do passado
Hoje destroem-no, como amanhã. Fingir

Estar bem já não consigo mais. Vou sair,
Arrancarei do peito o coração lesado
E não deixarei nunca mais alguém o abrir.
Viverei sempre só, sozinho e ostracizado,
------ À parte dessa civilização

------ Que mata e fede em alucinação,
Que zomba em cantigas de seus escravizados.
Os desertos me pertencem! quero sumir,
Gritar a Deus a morte dos alucinados!
Irei sozinho para não mais me ferir.

Ah, como é simples, como é fácil denegrir
O tolo coração humano aluviado!
Disperso, confuso, sem ter para onde ir,
Plebeu das massas tristemente renegado.
------ Já não sou humano. Sou um dragão.

Minhas asas tocam a fealdade infernal
De astros que giram em louco espaço noturno;
De minha boca saem grunhidos de animal,
------ Dos meus olhos o desejo de morte.
Já ninguém pode comigo, Dragão Soturno,
Com meu orgulho, vaidade, querer mal
A todos os que são felizes, que têm sorte,
------ Opostos de um dragão vil, taciturno!

Eu berro e grito por ermos campos vazios,
Gozo a morte de tudo, da humanidade,
Sinto o calor desses malditos corpos frios
Que encontro vagando, podres, pela cidade!
------ Entôo a bela e fúnebre canção,

------ Dos que combatem sem qualquer razão,
Pela maravilhosa e única verdade.
Em nome da desumanidade que crio
Grito forte com todo o peito e grande alarde
A raivosa confusão com a qual procrio

Sedento império de espectros a que me alio!
E assim me faço, Dragão-deus-da-Mortandade!,
Sem o menor medo perante o desafio
De ser rei de homens desumanos, sem vontade
------ Contrária que não acabe um dragão.

sábado, 3 de julho de 2010

Errata

I

Vem me falar de erros?
Pro inferno com os erros!
“Reparar os erros...”
Arre! Erros se reparam?
Erros se erram!
Faça uma errata.
Nada de erros!

II

Primeiro,
Vem me tirar do meu desassossego sossegado,
Me tira a liberdade, a identidade, o conhecimento de mim mesmo.
Depois vem me falar de erros!?
Essa tua podridão mental me exaspera!
E se eu colocasse tua cabeça num torno
E apertasse! apertasse!! apertasse!!!?
Aí, talvez, seria erro...
... ou a melhor coisa que já fiz:
Ter que catar teus miolos no chão,
Procurar os olhos que saltaram das órbitas,
Até desembaraçaria os cabelos da massa cinzenta apertada!
E logo os cabelos! Ironia...
O sangue escorrendo a cântaros da tua fronte,
Eu guardando-o num pequeno balde
amarelo!
Vendo-o coagular.
O ruim é o prelúdio: gritos.
E eu odeio tua voz! Me tira a concentração,

desencaminha
-me.

Poderia te amordaçar, ou melhor:
Arrancar-te-ia os lábios com os dentes,
Depois te rasgaria a língua
e sugaria o sangue dela...

... Silêncio.

E então:

O TORNO!

O forno e você a assar,
Exalando tua putrefação mental.
Me guiando no escuro por esse miasma alegre
talvez chegasse a mim mesmo.
Retiraria teu corpo esquartejado, queimado,
Providenciaria o mais belo funeral:
Haveria música:

“É tão estranho...”

E teu fantasma dançaria largamente!
Você adorava essa música quando viva,
Por que não depois de morta?
Encher-te-ia de moedas,
Para me certificar do trabalho do barqueiro,
de modo que não haja volta!
É, não volte! Nem deverias ter chegado...
Isso não quer dizer que quero que vás.
Fica! Mas não volte!
Cavaria 21 palmos de terra,
Jogaria 50 mãos de lama
sobre o que sobrou do teu rosto.
Sobre tua campa desenharia o sol,
Com giz, todos os dias,
tijolo de construção...
Por fim, ergueria eu mesmo a tua lápide
Vagabunda
E nela gravaria um irônico epitáfio:
Uma errata, que nem sei o conteúdo.

Sou louco, louco, louco!
Estou louco!
E da minha loucura brota o pecado
daquele que renuncia.

Com isso não quero dizer que não erro,
Mas que não há erros a serem corrigidos.

III

Isso poderia ser uma ode, se não fosse uma errata;
Poderia ser uma dissertação, se não fosse uma errata;
Poderia ser uma carta, não fosse uma errata;
E nem poesia chega a ser, pelo incomensurável fato de
ser uma errata
talvez
cheia de erros.

Lobo da estepe

Além do homem que sou
há um menino, que bem o sei.
Não o conheço; o vi apenas.
Vejo-o às vezes entre a massa esparsa da bruma.
Mas você o conhece, você o sabe, você o desperta,
rompe a mortalha gasta desse lobo cansado de vadiar pelas estepes,
procurando por algo que não sabe o que é.
É então que irrompe,
como se fosse rotineiro,
essa criança alegre que vive em mim,
asfixiada por asmática sordidez lupina.
A criança se revela,
me revela,
e ri do meu próprio embaraço,
da minha timidez,
do meu não-saber-ser-com-os-outros.
Com ela você ri, e juntos,
o menino que há em mim e a mulher que me olha de frente,
derrubam toda essa alcatéia,
toda a verdade lupina na qual me suponho.

Nesses momentos felizes em que me encabulo,
não me resta muito a fazer, não resta nada a fazer
a esse lobo solitário que vive rosnando e arreganhando os dentes
ao primeiro que atravessar seu território,
sua fronteira incólume e inexpugnável.
Senta, como um cão,
e observa menino e mulher brincarem.

Você se revela, eu me revelo,
e há sempre entre nós algo subentendido,
que não precisa se revelar – pois o sabemos.
Está em nós e em toda a parte,
não adianta fugir, evitar o meu olhar,
porque o que tão bem o sabemos
paira no ar à distância que há entre nós.

Aos poucos o lobo vence,
se mostra e arranha e rasga e quer sair!
O menino sabe que a hora é de ir,
a noite é dos lobos e é escuro lá fora!
É melhor que vá e desapareça,
antes que algo não termine bem:
o lobo é sarcástico, rude, vil!
O lobo é o que não se deveria ser!
Acima de tudo, não com você:
bucolismo cativante que se perde em vôos admiráveis!
Mas ao lobo só interessa sangue.

O menino se despede,
vai-se antes que o lobo surja.
Você fica, intocável e altiva... não queria deixá-la!
Por mim voltava e contigo passava a noite:
ainda que nada falássemos,
que nada fizéssemos,
ainda assim ficaria contigo,
cada um sonhando o seu sonho,
sentindo aquilo que é.
Sonhando talvez o mesmo sonho,
sentindo talvez a mesma coisa.
Calados ainda seríamos.

Mas sei que não posso,
que se o fizesse a feriria.

Visto outra vez a mortalha,
escondo nela o menino,
e no escuro,
qual bicho-do-mato,
volto para casa cismando comigo mesmo.
Remôo alguns versos para alguma poesia,
e volto solitário,
lobo da estepe,
pensando no que deixei, no que deixo
e no que deixarei de viver
para sonhar.
E no breve caminho da estrada
assim me construo, oniricamente,
para depois perder esse mesmo sonho
na imensa solidão da estepe sem fim.

Febre e Noite

Se em noites me vem visitar Nergal
Em seu manto de mortes e terrores,
Quero que me venha em forma abissal
Num corcel negro a destilar odores.

Venha este Rei dos Infernos de Outrora
Fazer de mim seu escravo dolente!
Torpe e sequioso de luz e aurora,
Beijaria o chão seco em cinza quente.

No sarcófago a me prostituir
Mil flores negras em cordões de angústia,
Medo em cadeados p'ra eu não fugir!

E se me valer de qualquer astúcia,
Me afogue e banhe num rio de dor,
Na chaga em pus do meu Sonho sem cor.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O Príncipe

Vago entre o Céu e o Inferno,
hóspede da Casa do Degredo,
onde todo dia é dia de guerra
e cada batalha cospe a ausência do meu exílio.

A maldição do tempo cai sobre o meu corpo,
a noite vem marcar a minha face,
extingue-se de olhos cansados a última chama.

Além, o mar inexistente insiste
a me fazer boiar em seu rumor,
misturar minha espuma ao seu suor,
fazer de mim sua própria dor.
E deuses maiores não morrem,
e homens dançam em barcos.
Tempestades, tormentas, ventos e cortes
rompem a amurada daquilo que fui.

Cai, ó Príncipe da Ilusão!
Aceita o teu destino!

Um réquiem distante conferirá recato à noite
e o esvanecer do tempo ser-te-á nulo,
deitado no esquife pobre onde bóiam teus sonhos.

Vai-te, ó Príncipe,
e procura tua verdade!
Ou te afogues no mar eterno do teu mundo
como a criança boba que inventou
a verdade horrível de um quarto escuro.

Deslizamentos

Como a chuva que escorre e molha o telhado
lanço minha dissolução ao concreto cinza da vida.
Como a gota d'água suja -
o pó do telhado! -
que cai e não encontra a poça,
por a água ter já se escoado,
resigno-me a não ser mais natureza.

Ah, o ódio de tudo
e o cansaço desse ódio
e o cansaço do cansaço ser só isso
e não ter o que fazer com ele!

Corre, chuva, nos telhados!
Corre, água cinzenta suja!
Corre e se vá perder no vazio,
deslizante única num chão liso,
que não lava a face de ninguém.
Vá, ó chuva da minha alma
e que o vento frio desta hora
não anuncie aquele sol falso
que por entre o céu carregado insiste,
tragicamente,
a me querer fazer aparecer.

Bar

Numa noite sem cessar eu procurava
De mãos frias, vazias, penitentes,
Em garrafas indecorosas que se uniam

Ao mistério incompreensível de cada coisa,
Uma coisa maior que em vão dissesse
A própria coisa perdida e interrogada.

E como um surto negro e inconseqüente
Se apossasse do meu ser ensimesmado,
Me afundei no mar maior de uma cadeira

Que sozinha havia, inconsolada,
Sem chegar à resposta gratuita
Que acalentasse esse meu ego delinqüente.

Submerso assim em devaneios
Me levei inconsciente a outras plagas,
Sonhos menores de um sempre mesmo sonho,

Incapaz da concretude que eu queria.
Adormeci meu corpo nu cansado
Num carrossel atroz de mil volteios

A espera de uma luz que em claridade
Me retirasse a estátua de mim mesmo,
Esquecido e de tudo renegado.

Um trajeto mudo e áspero me emudecera
Em que sob o halo da manhã chegada
Apresentou-me o Além-da-realidade.

Tudo o que eu julgava desconexo
Mostrou-se claro na verdade que se grita.
Mas a palavra felizmente debruada

Não permite o caminho então reverso
E a noite novamente foi caindo
Num gesto hermético e a si inverso.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Tempo

Rente à casa da minha infância
corria um rio.
A casa era de madeira e vida a escorrer,
o rio não sei de que era.
Saía de mãos dadas à alma que não era minha
e observava-me a correr no campo.
As flores lançavam-me perfumes de outros tempos,
balançando-me em músicas antigas
que ninfas divertidas insistiam em cantar.

Sempre que voltava à casinha da minha infância
não era a ela que voltava,
pois já não estava lá.
Havia sempre só o rio
a se fingir a passear.
Eu o seguia, como se segue uma vida sem propósitos,
e encontrava um porto, uma caverna, uma gruta...
E fazia o que quer que achasse de casinha,
e fazia dos meus muitos anos a minha infância.
E assim fui sendo,
caçador de sonhos que fazia meus,
perdendo a cada dia a esperança de ser outro.
Só o rio continuava,
deus úmido indiferente à minha passagem.

Ano Novo Chinês (carta em verso)

Tentei ajudar,
mas percebo que quem precisa de ajuda
sou eu.
Não sei o que fazer:
estou perdido entre os sonhos que criei,
todos ruínas, poeira, fracasso
do meu próprio existir.
Como sair daqui? O que fazer?
E, do fundo de uma garganta condenada,
a resposta sempre igual:
Eu não sei!

Tanto dei as mãos aos outros
que agora já as não tenho mais.
Quem afagará a minha face?
Quem alisará os meus cabelos?
Quem me encontrará em meus olhos?
E quem apagará a lembrança do que foi?
Ninguém, ninguém fará nada.
Não haverá a esperança de um novo dia com o sol posto,
apenas o sol posto.
Quero chorar e gritar.

Os ratos saem para a virada do ano,
que já está de cabeça para baixo;
os ratos roem a roupa do rei de Roma.
O mito reverbera em pêlos.
Os ratos são meus irmãos,
pertenço a eles.
Preciso de ajuda,
mas não preciso de ninguém.

Períodos

Opressão.
Ânsia de verso, cor ou sol.
Paisagens deslumbrantes que se afiguram onde nunca sairão.
Lembranças de páginas que não disseram nada,
e de outras que disseram tudo,
não dizendo nada também.
Vontades; desejos; lembranças!
Nostálgico e incandescente passado,
que já passou;
presente desprezível e desprezado,
ausência de substância;
Futuro,
medo de sabê-lo,
desejo de adiá-lo.
Imensa vontade de inexistir;
preguiça de ser eu.

A rua que tantas vezes vejo,
as pessoas com as quais sou obrigado a conviver,
os pensamentos
- o moralismo cristão! -
que me forçam a escutar,
e as situações geradas
por esse encadeamento de elementos sinistros!

Compreender o que eu não compreendo
não depende da compreensão de ninguém.

[Sou uma sombra...]

Sou uma sombra, ou, antes,
um projeto dela,
que nem a sombra chego a ser.
Sou a fumaça das fábricas, dos escapes dos automóveis,
do cigarro que mulheres fumam.
Sou, talvez não a fumaça,
mas a dispersão dela,
pois a fumaça realmente dita não passa de metáfora em busca
de um conceito que não sei expressar.
Sim, sou a dispersão.
A agudez do som que ninguém ouviu,
O cinza do dia chuvoso em que ninguém saiu de casa.
Sou tudo o que é apenas por obrigação de o ser;
Sou tudo o que é e passa sem contemplação;
Sou tudo e a nebulosidade estática de ser tudo:
A ataraxia de um deus morto
e a revolta de um morto-vivo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

[Entre o perjúrio...]

Entre o perjúrio e o altar
mora um anjo que não sei quem é.
Não posso lhe descrever as asas,
a face, os olhos...
Não sei dele para além de que existe:
no entremente de uma dualidade una.
Esse anjo que existe mas não se sabe
Senta e espera, por não sei quê.
Alto é seu perjuro,
blasfemo seu altar.
Um roçagar de asas veladas arranha a noite.
A aurora se avizinha
e ele fica na rua,
até que o tempo e a última estrela
anunciam sua solidão.
(Anjos não dormem.)

[Quando Deus...]

Quando Deus mentia
eu era menos triste.
Ele dizia,
ou diziam por ele,
que um dia eu seria gente,
que um dia eu seria humano,
teria um grande amor
e vida de venturas!

Conheci todas elas,
essas mentiras divinas
contadas por homens.
Como conheci,
perdi.

Hoje não sonho mais.
Deus é uma brincadeira
dos tempos de infância,
perdida na ignorância
do menino vadio.
E eu sou triste.

[De manhã...]

De manhã é péssimo acordar
e saber de um novo dia que
por fim
Não será novo:
as mesmas coisas, as mesmas pessoas, o mesmo tédio.
Os mesmos sentimentos implosivos que preenchem
o vácuo de onde se sente.

O vazio... o vazio tem sido eu.

[Não tenho...]

Não tenho ambição,
nem mesmo a mais sadia.
Sou assim, vazio e incoercível.
Não trago o leve cheiro de aurora
em que outros conhecem paz.
Existo. E por momentos basta.
Mas momentos há em que queria ser tudo,
e outros em que não queria ser nada.

A urbe pobre

Rocinha imunda,
Fim-de-mundo vazio
que me tem.
Em que buraco Deus jogou minha vida?
Em que beco imundo de tuas ruas ficou perdida a minha alma?
Elegia de fracassos,
reino de idiota burguesia!
Por que existes?
Que te percas, que te afogues
no torvelinho de tua lama podre!
Morta, não exales odor algum,
pois a lembrança de tua existência ainda macularia
o nojo das coisas.

Paraíso fétido,
de imundícies hostis e hordas bárbaras
que se comem ao almoço.
Dobre tuas esquinas
e esconda-as nos bolsos.
Que os edifícios caiam
e que a poeira levantada encubra o sol
por quarenta séculos!
Que não chegue nenhum feixe de luz
à fealdade de tua face!
Perca a esperança de novos dias,
rocinha imunda;
Perca a vontade de mudar,
paraíso fétido.

Pois para mim sempre serás
a barriga horrível da qual saí.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O convívio

E os meus tesouros,
escondidos entre a areia branca dos desertos
e um lodaçal de mangues ensombrados,
findaram.

Retiraram-me a última moeda,
extinguiram-me,
não como o ladrão absconso da noite quieta
mas como a horda bárbara
que marcha, sem regra,
com o alarido que lhe é próprio.

Sobrou-me, não mais,
apenas a memória
do barulho que me fizeram
ao de mim aproximarem-se, gritantes,
estes bárbaros de que vos falo.
Restou-me, de todos meus galeões,
apenas a face, fugidia em minha mente
mas vincada,
daqueles que me despiram e me entregaram,
sem qualquer sensibilidade.
Arrancaram-me tudo,
descreram-me de mim como me havia feito crer.

E por entre os destroços do latrocínio,
sob os indignos escombros do que fui,
ainda pode-se enxergar,
emergindo do areal branco
ou do lamacento mangue que camufla,
o molambo gasto e sujo de minha alma:
signo maior de humanidade.