"Teu ato mais sublime é colocar outro em sua frente." William Blake

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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sobre "Ondas do Destino"

Onde deixei o meu amor? Entregue à sorte do vento, de um sopro diáfano que paira, profano e puro, em olhos azuis carregados pela loucura de quem não sabe amar? Soube, eu, amar? Soube o que é o amor? Não me façam perguntas que não sei responder. Nada sei de mim, nem dela, nem dele. Apenas vi, e era melhor não ter visto. Era melhor não ter que aceitar, dia após dia, que não sei, nunca saberei, que espécie de sentimento é esse que faz com que rompamos os liames últimos da segurança que desejamos. Que espécie, que espécie de sentimento é esse que desconheço? É preciso se entregar, é preciso acreditar no impossível para viver? Então, acho que não sirvo para a vida, não sirvo para o amor, nem deveria estar aqui.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

História em V atos - Ato IV

Dormir? Dormir é um luxo. O sono, pássaro arisco da arapuca que faço de mim mesmo, bate asas para longe quando penso em agarrá-lo e inundar meus olhos. Dormir. Seria bom. Mas em minha cama rondam cheiros, frios, pairam em meus ombros espectros de perdidas carícias, roçam meus cabelos dedos que nunca beijarei. Memória: a vassoura dos olhos.
O céu quase sem nuvens lá fora, algumas estrelas, a lua minguante afia sua foice e o vento do movimento sopra para longe qualquer possibilidade de quietude. Cabelos longos, negros, muito negros, escorrem - intrusos? - pelos meus ombros sugerindo nunca serem meus. Gestos esboçados; palavras reticentes. O vermelho de uma boca que se recolhe e esconde. Lembranças, são só lembranças, tecido de brisas que me cobre feito lençol.
O que não fiz, o que deixei de fazer por preferir sonhar? Dormiria se tivesse passado dos esboços? Dormiria se trocasse as reticências por uma exaltada exclamação? Talvez dormisse hoje, talvez amanhã, quem sabe algumas semanas! Mas depois, passado o princípio de tudo, o desespero voltaria (sempre volta), carregando no lombo o peso de não ter protegido quem nunca será minha. O desespero, esse animal de carga.
Assim me fiz, quieto e amiúde, talhado para a noite, para reviver na noite o que a eternidade e seus dias não me permitiram ter. Tenho a mim, espelho embaçado: chegou-me apenas seu hálito, e isso foi suficiente para que a realidade perdesse totalmente seu sentido.

domingo, 17 de abril de 2011

História em V atos - Ato III

Cheiro de terra molhada. Pardais na plantação de arroz. Atiradeira alavancada com o garrote a espichar o ar. O susto. Não era matá-lo o que eu queria. Morte da minha infância, matei e morri sem querer. O pardal caído, pescoço quebrado, papo cheio de arroz. A vida se abria e me mostrava a faca de dois gumes que vazaria sempre cada uma de minhas ações. O pássaro morto; eu roto e puído no que sem querer me responsabilizei.
Nunca esquecerei essa imagem, a cisão definitiva entre a inocência e o pecado. A morte, a morte do pássaro foi meu ingresso para o mundo.

domingo, 3 de abril de 2011

História em V atos - Ato II

Sangro por uma primeira linha. A primeira letra é o primeiro toque, macular o que é branco é compromisso sério demais para que não doa a idéia de começar mal. Por isso, quase nunca, não sei começar. Abrir um texto é, para mim, uma das tarefas mais árduas, uma responsabilidade enorme perante mim e perante o outro. É como nos apaixonamos: os beijos, as carícias, o sexo. Quando nos apaixonamos realmente e, como no meu caso, se tem idéia de quanto se é sujo, sente-se medo de tocar aquela que amamos, medo de deitar-se com ela e, esfregando a sujeira no que julgamos puro no outro, sobe como que o pavor de torná-la tão suja quanto se é.
Lembro-me da primeira vez em que estive com uma mulher. Não, na época não me julgava sujo, pelo contrário, era limpo demais. Tive medo, medo de parecer ridículo, medo de não saber o que fazer das mãos, medo de ter medo demais para sentir verdadeiramente a sua pele. Guardei sempre comigo essa dúvida: terei sido ridículo então? Em momento algum ela reagiu como se eu o tivesse sido, também não reagiu como se eu o não tivesse. Na semana seguinte, N. me disse que estava com outro. Sabia que ela não gostava de mim. Pode ser que eu tenha sido ridículo. Foi então que deixei de brilhar nos serões da varanda; me recolhi, aos poucos e sem sombra de tranquilidade, ao quarto de despejos da minha refletida rejeição.

terça-feira, 29 de março de 2011

História em V atos - Ato I

No início, pensei que fosse possível. Houve dia em que julguei ser alguém; houve vez em que quis ser alguém. Lembro-me ainda dos primeiros anos na escola, a certeza de que para mim se reservava um rumo certo, o tempo em que as tias velhas, a família nos serões na varanda, dirigiam benevolentes para mim os olhares e me faziam acreditar em qualquer coisa, em qualquer coisa que poderia ser. Sim, para mim houve um tempo, um tempo futuro que sorvia deitado ao sol, estirado no chão quente de ardósia do terreiro, com os olhos fechados para que o suor para eles não escorresse da testa, e eu me via como o homem que hoje desconheço, completamente apto para o convívio entre os seus.
Todos na vida temos ilusões, o que seria de nós sem elas? E o que a face oculta da memória insiste em esconder no instante tenebroso do presente, não é mais que essa torpes divagaçõezinhas, esses planos do passado que se eclipsaram pela maneira inadaptada que hoje temos, ou ao menos a tenho eu, de lidar com o seu próprio tempo, presente e imediato. Mais que as reprimendas, que as admoestações do passado, que as lutas em que fui terrivelmente esmagado, esses sonhos irrealizados e irrealizáveis me formam, me preenchem o espírito com a angústia de não-ser. Hoje me reconheço como o aborto monstruoso de tudo aquilo que não fui, de tudo aquilo que não sou, e o espelho que toco e me desconhece, grita-me essa verdade pelos olhos perdidos de um rosto que não era para ser o meu.

domingo, 27 de março de 2011

Absconso ritual IV


Fotografia: Natan Henrique de Faria e Sales

Onde andará aquele garoto, aquele mesmo de olhos negros, meio lerdo, que me acompanhava nas discriminações da escola? Onde, onde andará? Onde estará Alexander? Até onde sei, pode estar numa cidade qualquer com os pais ou morando sozinho em Bucarest. Onde quer que esteja, é quase certo que não se lembra mais de mim.

Alexander era filho único. Emigrou da Romênia com os pais. Nunca lhe perguntei nada sobre Chausesco. Mas também, de que valia ter perguntado: com toda certeza ele não foi morto nem maltratado por ele! E, no fim, é sempre isso que importa, é sempre isso que procuramos conseguir: não ser morto. O resto (se gosta ou se não gosta, se é feliz ou não...), o resto é acessório, o resto é enfeite, o resto é o que não é importante.
Estive uma vez na casa de Alexander. Não ficamos em seu quarto jogando vídeo-game. Alexander não tinha quarto. Dormia na sala. Eu não tinha casa, dividia um apartamento com um monte de gente que entrava e saía: um dia dormia com alguém ocupando a cama ao lado da minha, no outro já não estava mais e era outra pessoa que chegava. Mais tarde também pude dormir na sala, mas isso foi mais tarde (depois de eu conseguir um vídeo-game).
Mas falava do Alexander, da vez que estive em sua casa. Antes de chegarmos, paramos num café, ele me pagou uma coca-cola. Ele me falava da Romênia, eu lhe falava do Brasil. Tenho certeza de que não acreditou em uma única palavra que lhe disse sobre o carnaval. Eu também não acreditei que Bucarest fosse linda. Saímos do café, seguimos pela rua da escola até a avenida, andamos por lugares que já não me lembro e chegamos à casa de Alexander. Pegamos a bola e fomos para uma praça.
Era uma praça grande, algumas crianças brincando, uns rapazes jogando bola. Nós ali, inventando um pretexto para nos aproximarmos, inventando um pretexto para nos sentirmos iguais, pois ambos intrusos ali. Quando cansamos, Alexander me pagou um suco (ele me pagava porque queria um suco para ele, como eu não tinha dinheiro para comprar o meu, e ele não queria que eu ficasse olhando, pagava para mim, mesmo eu recusando excessivamente).
Alexander então voltou para a sua casa, para a sua sala. Eu voltei para a pensão, com inveja da sala e do minúsculo apartamento dos pais de Alexander. Queria que minha família também estivesse habilitada assim. Cumprimentei-o normalmente nos dias seguintes, sem que o nosso passeio diminuísse a distância entre nós. Víamo-nos todos os dias, e, excetuando o sorriso sincero, era tudo indiferente.
Hoje, num canto qualquer do interior do Brasil, tapando os ouvidos para os sons de uma noite que para alguns é festa, sozinho no quarto, bate uma saudade danada do Alexander. Onde, onde estará Alexander?
Não sei. Mas hoje, hoje ele estará comigo.

Nunca estamos sozinhos

Tive meses de uma prostração sombria. Uma grande má vontade para com tudo. Um desejo, recalcado, de me subtrair à vida. Abandonei-me, senti vontade de correr e não mais parar, quis escorregar pelo beco sujo que é o destino. Mas, no momento decisivo, sobreveio o medo. O medo de me deixar cair e encontrar no fundo a minha imagem, o meu rosto contorcido num sorriso irônico, o meu olhar opaco a me dizer que era ainda ilusão.
Retorno. Não sei se para mim ou se para a vida. Ronda-me ainda a imprecisão do passo que não dei. Há mais de mil maneiras de se arrepender! Mas uma idéia, como uma agulha, espeta-me a consciência: não importa como, nunca estamos sozinhos.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O resto é a vida*

* F. Pessoa, Cancioneiro [187], v.1

Sangue a banhar um amarelo vivo de primavera morta. Era outono e a ausência do cheiro doce se aliava ao estalar das folhas mortas que caíam para dizê-lo. No chão frio, condizente substrato da manhã muda, jazia um corpo. Branco a reunir todas as cores, repousava na cama sem dossel que a natureza preparara. Salpicadas de sangue as folhas insistiam em manter o silêncio, em guardar o espanto da vida que o sangue morto lhes imprime.
Não haviam pássaros. Criatura alguma se lembrou de entoar um hino àquela que partia não se sabe para onde, nem se realmente partia. O que disse? Não, não posso afirmar que ninguém se lembrou, talvez o silêncio fora necessário: a natureza despedia-se de uma ninfa que se sonhou mulher, e não se chora por verdadeiros deuses. Fato é que ali estava, como uma praia, o corpo de areia branca, fina, a se dizer delgado num mar de sangue. Minuto sem vida, tempo sem espaço. Como num transe ritual os cabelos iam e vinham a dobrarem-se uns sobre os outros, às fórmulas místicas da brisa fria que os embalava: filhos mortos de pagã inexistente.
De vagar, como se não quisesse acordar aquela que talvez só dormia, aurora, a de róseos dedos, já lhe afagava a fronte, cobria seu corpo nu com os tímidos raios a nascer. Sim, era já o cortejo fúnebre que Apolo enviara: aproximavam-se seus filhos a envolver o corpo inteiro de um amarelo dourado [...]. A Terra dava-lhe o leito, frio como o corpo, e o Céu fazia-se-lhe do dossel que não tinha. Alma dos dias que não vêm, agora visitas o Inferno, e pergunto-me se levaste o óbulo ao barqueiro que te espera. Será que te espera? Pode estar em outra parte, cansado de esperar a todos, a ser ele também esperado, como o findar de antigas tradições. O Inferno há de ser frio, e os raios que te cobrem lá não te chegarão. Tens medo? Queres voltar? Não há volta. Paira sobre ti, fantasma de ti mesma, que a terra há de cobrir-te e beber-te o sangue. Amanhã já ninguém lembrará de ti e o lugar onde agora repousas não será mais que outra terra qualquer.
Serena. Linda. De que te serviram beleza e serenidade se iria morrer? O que levaste contigo para além do que não levaste? Apenas sei o que vejo: um corpo novo a apodrecer, o sangue que já coagula, os cabelos que dançam e a moldura natural que envolve tudo isto. Não me importa de onde vem o sangue: morreste. Interessa-me a imagem, e a sensação falsa de ver uma deusa que se perde.

Carta*

*s/d

Estimado Sr. Luiz Antônio Montello,

Admito ter ficado surpreendido com a carta que me chegou às mãos. Primeiramente, gostaria de elogiar a sua iniciativa em organizar algo de tal importância, com os fins dignos e honrados de resgatar as antigas tradições e velar por uma erudição há muito perdida; seus esforços demonstram seriedade e coerência para com o assunto. Devo apontar, no entanto, alguns obstáculos.
Gerou-me algumas especulações filosóficas o tema que me propôs. A idéia de que existem vários caminhos, várias rotas que levam a um mesmo local, a uma única verdade, não confere com o caráter anárquico e multifacetado do meu ser. Acredito na multiplicidade, nos valores relativos, nos indeterminismos. Creio que a verdade é um processo, e, nesse processo, aquilo que era verdade muitas vezes se converte em mentira. Haveria uma transubstanciação naquilo que é o objeto de nosso assunto? A verdade que se torna mentira perde em essência? Ou sempre foi e será a mesmíssima coisa e tudo não passa de nomes que tão apressada e ignorantemente conferimos às coisas? Não existe verdade, existe apenas a coisa que adjetivamos como tal em determinado momento. Existe, sim, um caminho.
O caminho é tão variado como o número de andarilhos que o queiram percorrer: enquanto o eremita abdica de tudo e encontra o sublime na contemplação de um deserto escaldante, por frinchas na pedra que toma por morada, o bêbado sujo da esquina próxima é capaz de trilhar perfeitamente por sua promiscuidade e vício e ter a contemplação do sublime. Não me compreenda mal, pois não estou a afirmar que o eremita e o bêbado chegam ao Sublime, pois nego sua existência. Chegam ao sublime, cada um à sua maneira, e é impossível comunicá-lo (a arte apenas nos dá um vislumbre do sublime de cada um).
Sr. Montello, é preciso chegar às portas do Eu, penetrar o máximo possível na introspecção e descobrir cada um os meios para a absorção da vida (a contemplação do sublime não serve mais que para isto). Levantemos da cadeira, imprimamos às nossas pernas incertos passos até a janela defronte e por esse vidro sujo, em meio ao caos dos passantes em baixo, assustemo-nos pela primeira vez com olhos sem donos a nos fitar. Quando descobrirmos ser os nossos, já então será tarde para que voltemos: entramos na vida, compactuamos com ela, e o preço, a cada um caberá o seu, é o não saber nunca quem somos nós. A dúvida é o único prêmio que a vida nos concede.

sábado, 10 de julho de 2010

Idéias postas sob o crivo do álcool

O ideal estético caiu por terra. Os versos hoje forçados nada mais são que fingimentos, mentiras que escondem a deficiência técnica que o Romantismo fez imperar sob o livre pomo do sentir. Foram-se com os últimos poetas os elementos que regulavam a nobreza da arte poética. Na poesia atual, basta que ponhamos aqui ou ali algumas palavras em itálico, mediadas por pontos ou pausas maiores, para que qualquer escrito tresloucado se diga “arte”. Com uma tal falta de literatura como há hoje, o que mais pode o homem de gênio senão criar seus próprios amigos literários, sua literatura de muitos em si mesmo (parafraseio toscamente Pessoa)? Decadentes! Hölderlin vomitaria sobre esse vômito que nos é impingido, tremeria de ódio contemplando a estirpe da qual é pai.
O literato atual deve fazer do álcool seu único amigo literato, fazer desse consumo sua higiene básica, seu dia-a-dia expositivo da literatura. Encontrará somente em si mesmo a única alma que comungará de seus versos, e, ainda assim, ébria. Quantos são os que conservam a fiel arquitetura do fazer? Em que nicho de ninfas a poiesis se escondeu? Se Platão expulsara da sua idealizada pólis os poetas de então, ainda que coroados com mirto e oferendas outras, o que fazer desses cretinos que subvertem a quintessência que é a arte poética?! Para o Inferno mandá-los? Não, nem para o Inferno! Matam a cada palavra sublinhada, escondida num não-dizer, tudo o que deveria ir além de Homero e Milton! Não, não se pode conviver, porque não se pode aceitar.
Superficialidades, insuficiência transcritiva... é contra isto que me oponho.

sábado, 3 de julho de 2010

Devaneios libertinos

Bêbado. Bêbado como sempre tenho sido, bêbado como sempre hei de ser.
Qualquer contato comigo resultará em terror. Meterei o medo em sua vida como o libertino se introduz na meretriz. Não quero lamentos; não quero chieiras: a menor recusa será punida pela força que o peso da minha mão permite. Não desejo sua simpatia, tampouco seu consentimento.
Sou o grito rouco de uma consciência noturna, sou o desespero das mazelas do dia, sou a angústia da própria existência.
Acordo incapaz para o dia.

domingo, 11 de abril de 2010

Do Livro do Desassossego, o sossego que não tenho*

* trechos escritos a partir de reflexões advindas da leitura deste íntimo diário de Bernardo Soares


“Deus é o existirmos e isto não ser tudo.”

Procuro um deus plebeu e um plebeu que não seja deus. Essa busca se me chega em noites insones, manhãs angustiantes e tardes, como esta, tediosas. Sei que tal coisa não se pode encontrar, mas me consolo em sonhá-la. Assim, crio deuses do degredo humano e homens menos arrogantes que um deus. Me faço outro na imensidade única de ser tudo: nesses momentos, sou o Deus Criador e moldo o mundo à minha imagem e semelhança. Faço com que tudo me convenha, e essa animosidade de tudo faz-me feliz a minutos.
Há o momento, porém, que terei que acordar, descer da escada alta do sonho e saber-me eu, ridículo e infeliz. Eu, o fraco, o estranho, o covarde, o vil, gasto os meus dias criando mundos e me achando Deus? Tenho pena de mim! Da minha ignorância e covardia ao viver, do meu medo da convivência. Sou como o mendigo que não venceu o orgulho para pedir uma esmola e preferiu, por ser menor o incômodo, morrer de fome a ter um pão seco que engula. Se pedisse, talvez nem um gole d’água lhe dessem. É um pessimismo crônico, mas não sei como me livrar dele e tudo vejo por esta ótica. Quem se faz presente quando grito, se gritasse? Quem me estenderia a mão, se eu a procurasse? Quem faria por mim qualquer coisa, destituído do sobretudo da obrigação ou da casaca pesada do dever moral? Quem me ajudaria por mim? Não encontro, nem encontrarei quem o faça. Se alguém vem aos meus gritos, é só para que me cale; se alguém me dá a mão, é porque incomoda vê-la estendida, como um trapo imundo. Tudo o que se me fazem fazem apenas até onde alcança a dimensão do senso estético. Tudo é apenas um esforço para que a normalidade reine, o ser estranho que invade a casa dos homens é um estorvo, uma monstruosidade que deve ser suprimida.
Sozinho, choro e rio do que faço, das situações em que essa vida adversa a mim me coloca. Eu, tão despreparado para o convívio, sou obrigado a conviver da pior maneira e ainda ter a consciência disso. Se fazem ausentes todas as cartas do baralho e eu me vejo um coringa fracassado por não lhe haver baralho. Rio de mim mesmo, da minha roupa de palhaço e dos meus modos tão pouco convencionais, e me creio pobre e débil. À certa altura, pergunto-me do fundo mórbido do interior de mim: há alguém como eu no mundo? Há quem padeça do desgosto e da ridiculeza de não saber agir? E me calo sem respostas. Encontro em Bernardo Soares, lisboeta da Baixa, figura de livro, uma alma, senão igual, parecida com a minha, e leio nele as minhas angústias. A sua voz, aparentemente tão pouca coisa, encarnou, será? a substância de milhares de vozes que se calam? Nem eu, nem ele, podemos saber. Ainda que ele tenha sido sozinho, o transcorrer de mais de meio século trouxe-lhe uma alma irmã da sua, em angústia e depressão constantes que alimentam essa capacidade incrível de se fazer sofrer.

“Amar-me é ter pena de mim.”

Às vezes pareço fazer-me coitado. Quando tomo consciência disso, mais coitado me sinto, por saber que coitado o sou e não só o pareço. Preencho com pena a nulidade do meu vazio interior, e concedo a mim o amor que me não dão. Não sei se de amor se trata, pois não o suspeito de forma alguma. Mas não me importa saber, não me interessa que saiba. Sinto-me, e isto basta para que sofra.
Se há quem me sinta, sente-me com pena. Ama-me? Como posso eu saber, se não sei se sentem, se não sei como amam? Nada posso saber, nem quero saber, exceto o saber único de saber-me nada.
Sei das pessoas do meu convívio forçado como aparentam-me ser, e me pergunto se também elas me tomam como pareço que sou. Fazem-me bem ou mal? E o que deveria ter por bem ou mal? Basta que vejam, e eu existo fora de mim. Me perco, porque não compreendo o que me há de exterior. Pairo, disperso como eu só, entre as múltiplas pessoas do cotidiano. Me altero para o convívio.
Encaram-me com pena, pena e comiseração. Questionam minha presença para sentirem-se bem consigo mesmos, para que façam a boa ação do dia. Pensando ajudar-me, criam-me um imenso desconforto e me querem, não o pano velho que sou, mas o linho que por vezes pareço ser. Volto, e sou molambo; o pano podre que se rasga ao toque pungente da criança sem medo. Querem-me não o que sou, desiludem-se e têm pena: pobre diabo que não soube ser!

“Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver.”

Os meus sonhos, que não sei ao certo se são meus, e que apenas suspeito serem sonhos, quase não se mostram fora de mim. Ao menos não padecem do desplante sujo da mácula alheia. Se transbordam de mim, preenchem um quarto vazio que não é o meu, pintam e fazem desse quarto uma semelhança de mim, sem que se perceba que não seja eu.
Os meus sonhos são sonhados apenas para sonhá-los e permanecerem sonhos. Sonhos são impossíveis. Sonhos possíveis são apenas desejos, veleidades que se querem reais. Querer é trair o que se sonha, pois que assim o despimos, o sonho, daquilo que o torna supremo: sua impossibilidade e a infinitude dentro dela. São os sonhos infinitos dentro da impossibilidade de serem reais, pois a fantasia, matéria do sonho, quem faz somos nós, alheios a todo o resto que nos não convém.
Os meus sonhos, quando muito, os ritmo, coloco-lhes cadência, cor, forma, dentro de uma poesia qualquer da vida não vivida que é minha. Não me importa a poesia, como conjectural autor, pois que a tenham quem achar por bem lê-la. Importa-me o sonho que nela vai, que deposito na esperança de que se um dia não houver mais sonhos, podem sonhar, ao lê-la novamente, aquele mesmo sonho. Por isso, o que escrevo não é para que a vida me galardoe por isso, antes, porém, para que eu sobreviva diminuindo o muito que sinto e desse pouco subtraído confirme o tédio de dias vindouros esperado sem qualquer esperança, quando o que existe não me diz nada e o que pode existir também não. Nesses dias, deixarei de ser o profeta que não sou e o historiador sombrio de minhas emoções, deixarei tudo isso para viver um presente falso, baseado em meandros de outrora. Mas sonharei tudo novo, tudo como nunca foi sonhado; ainda que seja o mesmo sonho, sonhá-lo-ei outro por eu já não ser mais eu, senão eu-outro que acabei por ser.

“Tudo vem de fora e a mesma alma humana não é porventura mais que o raio de sol que brilha e isola do chão onde jaz o monte de estrume que é o corpo.”

Ao ver o meu reflexo nos azulejos de uma cozinha qualquer, ocorre-me que aquela imagem é outra que não seja eu. Olho-me, àquela imagem, recurvada, arqueada, com a cabeça levemente voltada para baixo e o corpo frágil fazendo a linha fina e deselegante projetar-se perpendicularmente à bancada naqueles mesmo azulejos que me devolvem.
Se aquele desenho desajeitado e débil é o retrato físico do meu corpo, seriam os meus atos, também, desajeitados e débeis, retrato anêmico de minha alma? Esta indagação, que me ocorreu na cozinha enquanto comia, menos por fome que por educação para com quem me preparou o lanche, acompanhou-me até a este quarto emprestado que tenho feito meu. Seriam os meus atos reflexo idêntico do que hermeticamente sou? Pobre de mim, se assim o fosse! Sei a todos eles falsos, fingidos, levemente rebuscados com a ironia com a qual os corôo. A minha alma é velada mesmo para mim, mal a suspeito. Os meus atos são tortos e incapazes de retratar qualquer coisa que não seja ridícula. Os meus atos, quando ajo, não são meus, mas da situação que os fazem; não sou nem a boca por que falam, nem o gesto pelo qual se mostram, sou apenas o movimento muscular inconsciente, acionado por não sei que neurônios dispensáveis, que faz com que o corpo viva e os atos saiam por ele. Quando assim procedo, estou longe, fora daqui e de mim, em galáxias outras e em sistemas solares que a astronomia nunca descobrirá. Nesses momentos me divido: de um lado o eu físico e biológico, de outro o anímico e racional. O primeiro é feito a cada instante, o segundo se faz eternamente e nunca deixa de ser.

“Benditos os que não confiam a vida a ninguém.”

Sim, benditos sejam os que se fazem sem a confiança dar aos que os querem feitos.
Não pertenço a uma multidão, a um grupo ou qualquer outro ajuntamento de gente; pairo sobre o que quer que seja e apenas aparento ser. Ninguém me sabe eu, todos me sabem outro. Tangencialmente vivendo, apenas esbarrando na soleira quando deveria entrar, nunca deposito em outros olhos o espelho de minha alma que são os meus. Moldo-os para que não falem. No entanto, perscruto a essência alheia e julgo, quando realmente quero, encontrar o saber idiota que o outro me quer esconder. Que cada ser se faça segundo a sua própria amargura, pois que a mim também não me vêm ajudar. Sei, porém, que chegada a hora, movido por um altruísmo cristão que me faz ter nojo de mim, sou o primeiro a dar a mão, afagar os cabelos e oferecer a amizade sólida que não me quiseram dar.
Quando as brumas se me fecham o espírito e a tempestade sufoca-me o peito, quando o tédio é corrosivo e a lucidez qualquer coisa que me quer enlouquecer, nesses momentos terríveis estou sozinho, não há nenhuma amizade que me retire a escuridão. Estou sozinho, nu diante a toda maldade que me toma, toda a doença que me mata. Ao meu auxílio nenhum ser se dispõe a vir. Os meus espasmos sou eu que limpo, o meu sangue sou eu que vejo, a minha carne sou eu que rasgo; sozinho. E se acaso o espírito me quiser abandonar, não haverão flores nem velas, haverá apenas o choro de quem nunca esteve ali, haverá somente a compreensão dos ausentes.
Não me confio a ninguém, porque não há em quem confiar. Se sou triste, o mundo não o deixa de ser. Se sou doente, só quero que essa minha doença não se alastre e que o mal da solidão não corroa as vísceras dos que ainda sabem amar.

“Em geral sou uma pessoa com quem os outros simpatizam, com quem simpatizam, mesmo, com um vago e curioso respeito. Mas nenhuma simpatia violenta desperto. Ninguém será nunca comovidamente meu amigo. Por isso tantos me podem respeitar.”

Eu sou amigo de alguém, ou é esse alguém mais amigo meu que eu dele e simplesmente retribuo por obrigação a mesma amizade? Talvez sequer exista Amizade. O que há é apenas uma confluência de afinidades e interesses mútuos que permitem uma relação de associação com o outro até chegada a hora em que os lucros já não rendem mais.
Se me acusam de triste, não sei do que me acusam. A tristeza está por fora, eu apenas a observo com o escrutínio cético para com os homens. A tristeza invade-me, mas reside em vós. Por vezes, penso que a única pessoa que se possa dizer feliz sou eu, justamente por perceber a tristeza que há no mundo e continuar vivendo, continuar sendo eu, e contribuindo com esta grande e maior tristeza. Triste é existir, ainda que a existência não pareça tristeza.

“A minha vida é como se me batessem com ela.”

O estudo de mim mesmo se me veta mesmo ao fim. Por mais que me esforce, nunca chegarei a resultado nenhum do que sou. Tudo passa pela ótica falsa da imprecisão e do falso entendimento. Sou fugidio mesmo para mim.
Outorgo a um qualquer desvão psicológico meu essa atenção insalubre que me concedo; passo-a a outros inexistentes. Há quem se faça em linhas tortas e há os que se fazem tortos em linhas certas. Não sei aonde chego quando não chego a lugar nenhum diferente do qual saí. Por isso, não sei para que saio. Quando volto, sinto a mágoa mental da intelectualidade fracassada e o meu orgulho misto de desespero reverbera pelas paredes do quarto sem vida seu canto infantil. Eu calo e escuto esse canto gelado que me envolve. Quantos deuses mato!
Não me compreendo e não sei para que vivo, se vivo na incompreensão daquilo que sou. Sofro com todo o meu eu exterior, colado a mim com o siamês que me espanca. É ele a vida que me bate, a minha vida que me bate. E eu sou o desvegetar inútil de uma hora triste.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Ateísmo de parede...

O ateísmo é a religião final. Agarramo-nos ao Nada para fugir do terror e do medo que nos causam o absurdo da vida. Nós, ateus, vivemos a noite eterna dos tempos em que não há som diferente dos gritos de Sísifo: tudo é Trevas, Desespero e Angústia. Não existe qualquer motivo para vivermos, a vida é sem sentido e sem propósito, e não há destroços flutuantes onde se apoiar no imenso mar de sargaço que é a passagem excruciante dos dias. Somos o dejeto de todos os sistemas e explicações, somos o pó sujo e impróprio da fabricação de deuses, somos o sacrifício inútil, a libação passada em branco. Crianças órfãs que somos, procuramos beber de um trago o licor amargo do Esquecimento. Gritamos, no quarto de despejos que nos serve de vida, com medo do escuro, e não há criatura que repouse a mão sobre nossa fronte e nos embale numa música branda e calma. Nosso grito se perde no vazio e quase nos arrependemos de ter gritado: temor dilacerante que vá a acordar novos pesadelos. Precisamos esquecer, temos que esquecer ou a vida se nos converte em tormento e aflição. Estamos perdidos na Noite, e um bafo frio de morte vem percorrer os nossos rostos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Carta*

*s/d

Caro Sr. Kappus,

Não te conheço e acredito que continuarei sem conhecer-te. Para mim és apenas mais um nome lido num papel qualquer. Minto, seria... Seria apenas mais um nome se não houvesse a semelhança que encontrei entre nossas personalidades. Soube, por sucinta leitura, dos teus temores e angústias, da efervescência passional que te preenche o espírito.
Perderia tempo ao me apresentar, ao dizer quem sou, o que sou. Tudo isto ficará explícito no desenrolar dessa forçada correspondência, pois o não ter com quem me desabafar obriga-me a isso. Não procure nexo em minhas palavras, pois não há nem o desejo de o ter. Não me creio capaz de realizar o que me proponho: o relato cirúrgico das minhas emoções, o diário único do meu estar-no-mundo. Começo, então, com a palavra base que sustenta a noite de mim mesmo: MEDO.
Há algum tempo principiei a sentir medo de dormir; para ser mais exato, medo de ir dormir. Quando pouso a cabeça no travesseiro e acomodo o corpo na superfície macia do colchão, fecho os olhos e me torturo. É horrível! Faço a retrospectiva do dia, o meu leque de oportunidades perdidas; faço a estimativa do dia seguinte e das oportunidades que hei de perder; finalmente, puxo o passado para dentro de mim. Peso cada palavra, cada gesto, cada olhar meu e dos outros, coisas de que ninguém mais se lembra a não ser eu, erros irreparáveis e insignificantes para a vida real; cruciais para a vida em mim. Enfim, tudo me angustia: o sorriso ou a falta dele, a palavra rude ou o elogio, o que eu disse ou o que deveria ter dito. E temo a verdade de passar por isto diariamente. Sendo assim, adio o quanto posso o repouso forçado: ando pelas ruas sozinho até à madrugada, volto para casa e invento coisas para me entreter, luto contra o disfarce do sono. Neste exato momento estou aqui, idas já as primeiras horas da manhã, experimentando a brisa precedente à aurora e passando a um qualquer desconhecido o desconforto que me vai na alma e nos dias.
Somente nas horas avançadas da noite, quando não há a horrível senda de deitar, é que me sinto à vontade comigo mesmo e com o que me rodeia. Aprendi a ser sozinho e a noite traz consigo a escuridão que mereço. Contudo, a situação tem estado difícil, pois sempre há um deus comigo, em minha mente. Uma deusa que me suga e me atrai, me consome o que tenho de melhor. Ah, Kappus, sou uma marionete invisível de cordas firmes e grossas que se denunciam em movimentos disparatados. Os meus pensamentos, a minha escrita, se tornaram estéreis, sucumbiram todos. Por que, Kappus, por que ser assim? Qual é a parte desigual que me coube da matéria morta dessa primavera gelada? Retira-me essa deusa ou entrega-me totalmente à sua vontade. Arranca-me a adulterada escolha. Quero fugir dela e de mim.
Como é frio o vento em minha alma! Como é negro e céu sem estrelas o infinito de horror que há em mim! Quantas vidas eu matei hoje, Kappus? Quantas!? Sinto frio e a falta de um abraço. Inúmeras vezes suicido. Sinto-me pai do filho que nunca terei; sinto-me pai do filho morto que nino no colo. Sinto-me pai de um cadáver, e satisfação nisso. Sinto-me vil e ridículo. Mais: sinto-me sozinho, desesperadamente só. Não há nenhum anjo sem asas que me dê a sua mão, não há quem estenda as mãos para meu próprio sofrimento e é angustiante ter de inventar esse alguém...
Kappus, com toda a dedicação que sua inexistência corpórea permite, meus cumprimentos e graça pela oportunidade prestada. Com toda a falta de sossego,
Eu.

Do Desconforto*

*trechos de um antigo diário

05 de Dezembro

Estou sozinho. Não fora isso tudo o que eu sempre quis? Então, tenho um quarto só meu para passar a noite acompanhado da solidão e acordar com ela. Talvez não seja tão bom quanto me fiz crer, mas também não é tão ruim quanto parece aos outros. O certo é que a partir dessa data, até que termine o caderno, relatarei a falta de relação cotidiana que observo, que vejo, nessas cabeças a meio palmo do chão e que, ainda assim, julgam ser o Infinito.
Enfim, relatarei o que tiver que relatar.

18 de Dezembro

Pretendia manter um registro regular, uma escrita constante sobre esses dias que passam aparentemente sem querer passar. No entanto, observa-se o lapso, a incompatibilidade... a preguiça... a falta do que dizer. Minha vida sempre se deu assim: uma sucessão de projetos abortados antes mesmo de começar, ou, se começados, falhados logo ao início. Sou incapaz de terminar algo, de dar continuidade a qualquer coisa. Sou inanimado ao que é exterior a mim.
Era do meu intuito também tratar dos meus sentimentos e pensamentos, da minha psicologia, da forma mais imparcial possível. Vejo agora que as coisas não ocorrerão assim, que esses meus fugidios escritos se desenvolverão livres de amarras estilísticas. Esse caderno será como uma retratação dos meus dias e do que em mim acontece. Não se trata de ser fiel a nada, sequer a mim: apenas aos meus sentimentos.
Tenho trabalhado, vagarosamente, minhas poesias avultadas em papeizinhos dobrados e perdidos em cantos. Passo-as a limpo, corrijo uma ou outra coisa sem mais preocupação que ficar livre de corrigir, me surpreendendo lendo coisas boas e más. Aqui não serei o hipócrita que tenho sido e dizer que não tenho escrito nada que preste. Porém não vôo longe e sei reconhecer o meu valor: não sou literatura de qualidade, não a quero ser. Mas não importa, ao menos tenho coligido minhas poesias e isso já mostra uma preocupação que nunca tive.
Abandonei [...]. Muito me faz pensar esse Monsieur Julien Sorel.
A vida não me tem sido tão opressiva como outrora. Difícil, sem esperanças, repleta de preocupações vãs para quem não sabe agir... Mas me apresenta novos desafios que, apesar de me sugarem, sei que terão um papel relevante em dias vindouros. O meu ser está a ser moldado. Veremos até aonde irá meu conforto e, mais importante, quando começará minha desgraça. Até lá, existo como posso.

26 de Dezembro

Bebi, como sempre tenho feito. Acho que vou me entregar a esse vício; não me domino mais. A vida só me é interessante quando bebo, do contrário tudo não passa de tédio e sofrimento.
Tenho me esforçado por ser mais humano, mais normalmente humano. Tem sido um processo penoso, árduo, mas pelo qual tenho que passar. Abdico de mim mesmo pelo outro, mas o mais importante ainda não consegui esquecer. Quero entender todos a toda hora, não me basta compreender e dizer algo artificial: quero sentir o que o outro sente.
Quem me dera ser outro sabendo que o sou! Mas isto não se pode e constato que sou sozinho, vil, inútil. Uma confluência de más coisas que se completam para me criar. Eu que sempre creio no que me dizem, que quero tornar a vida menos desconfortável a cada um, eu que... Eu que tanto penso não recebo nada, apenas a chacota alheia.
Quero alguém que me queira da maneira que quero que me queiram. Quero alguém assim, que não existe. Até lá luto para existir enquanto os que me estimam são vivos, pois assim não machuco ninguém.
Mas quero dormir.

28 de Dezembro

“Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também.” Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na Baixa.

Me deparo com este trecho às duas da manhã. Minha tentativa de dormir, de me libertar dos pensamentos, se mostrou vã. Agora é outro o caminho trilhado: agora vivo meus sonhos. Mas sonho ou quero sonhar que sonho? Não sei, e a cada dia acho que sei menos. A cada dia desconheço tudo, me faço estranho a mim mesmo. Me perdi e não me encontro, nem a ninguém que me ajude a encontrar-me.
A vida sempre me foi um tédio, e o asco que esse tédio sempre me provocou apertava a minha garganta até eu quase sufocar. Acontece que hoje, apesar de sentir o mesmo asco, algo mudou. Antes não precisava sentir as pessoas, pelo contrário: lutava para não sentir. Algo inverteu isso em mim: luto, me esforço e me obrigo a abraçar alguém, a conversar, a sentir o outro com o mesmo grau de abstração que antes usava para não sentir. Na verdade, não gosto dos outros; necessito gostar. Me rebaixo por sentir.
Já não trago a certeza de nada e como sempre não assento castelos em areia: sinal da minha sanidade. Mas uma dúvida dilacera-me: sonho ou não sonho, quero ou não quero? Qual é o meu lado da balança? Sinceramente, não sei. Me acho tão disperso que creio conseguir ser tudo ao mesmo tempo, não sendo nada. Sou o dono de mil sonhos, mas nenhum é meu, nenhum o faço, nenhum o sonho. Apenas existem, por si só e contra a minha vontade. Estão aí para escancarar a crueza de mim mesmo, minha própria nudez desmistificada diante de um espelho sujo. Esses sonhos me fazem, me moldam, são meus pais, tios, filhos e netos; ou apenas o sonho de que sejam. Vivo por eles; sofro por eles.
Não me importam essas questões, queria me ver livre delas. Contudo, não posso. Acho que jogarei pela janela os corpos mutilados dos meus pais, tios, filhos e netos para que os abutres os comam. Beberei do sangue deles todos e comungarei de algo certo que me definirá. Faltarei ou não a todos esses compromissos?

1º de Janeiro

Com a virada do ano, eis que me vira a vida. Como previra, a desgraça me abateu. Entre a festividade da ocasião houve apenas a minha presença fúnebre e fria velando a morte dos meus sonhos. Sim, a morte, porque não os quero mais, despojei-me deles por não serem mais meus. Abdiquei da bebida que me viciava, abdiquei de mim mesmo. É uma questão de tempo eu me enganar e criar novas ilusões, de natureza diferente, esteja dito, que me possam forcejar à vida. Sair dela tem sido tão tentador, tão fácil e livre de segredos! E é esta naturalidade em ver a morte que me faz recear o fim próximo.
Me sinto um perfeito idiota, um palhaço, um falhado! Parece que riem de mim, zombam das minhas tentativas de ser gente; eu, lobo. É palpável esse desconforto, mas não maleável... Eu não pod[...]. Mendigo pela pena dos outros, por sua companhia, sua caridade. Suplico para que me façam sentir bem. Por quanto tempo sentirei o peso dessa minha vida morta e o desconforto desse meu existir para dentro?
A desgraça bateu à minha porta. Se abri, agora que entre e sente-se comigo. Há sempre um espaço vazio quando sempre se esteve sozinho.

05 de Janeiro

Impressiona-me como coisas fugazes parecem eternas e como coisas eternas (ou mais ou menos duradouras) parecem fugazes. Mas sei que tudo isso é psicologia para não enlouquecer.
Ontem mesmo dizia da desgraça que bateu em minha porta e que deixei entrar. Sentou-se. Sequer conversou sobre transcendentalismos e foi embora. Ainda sinto no ar, apegado, o seu cheiro forte de ressentimento e desespero, enquanto fito a cadeira fria que ela usou para descansar.
Durante esses dias de ausência quase me perdi e quase me procurei. Não, não vou encher de mais angústia estas páginas. É preciso mais dizer o quanto me recuperei, ainda que [...]. Há momentos em que me julgo inútil.
Quem discordará de mim? Nos meus sonhos o deus sou eu, e o meu Gênesis é um livro escrito a lápis que rabisco e apago o quanto quero. Ergo e destruo castelos, invento novas galáxias e não preciso explicar como se formaram. Faço o que quero, pois dentro da minha sensibilidade o mundo é eu. A visão do outro é só uma visão de mim, vida de espelhos mútuos.

12 de Janeiro

Estive em viagem. As grandes cidades sempre me entediam e angustiam. Dias terríveis. Não sei se cá é melhor ou não, nem muito me interessa saber; mesmo sentindo-me mal, sinto-me melhor aqui. A falta de paz vem de dentro, pouco de fora; lá vem de fora acumular-se com o que há dentro.
Estou folgado esses dias, e as preocupações, se não se fazem menos, são tênues preocupações. Restam as mais sérias, e por isso mesmo de mais difícil ou impossível resolução. Adio.

15 de Janeiro

Dizem-me ser a vida bela e nós os únicos responsáveis pela menor ou maior beleza dela. Mas como somos responsáveis se a vida se faz de outros, e esse conhecimento do alheio nos escapa? Como penetrar a esfera em que o outro vive e descobri-lo, julgá-lo, sabê-lo como ele se sabe “eu”? A vida são os outros que fazem, apenas nos moldamos como é possível moldar: ignorantes do que estamos a fazer.
É triste conhecer isso? Sim, mas menos triste que não conhecer e viver na fantasia de ser feliz. Não que isto fosse ruim, mas sempre há o risco de durante esse eterno carnaval a fantasia venha a se rasgar, e por se crer real e necessário o que há de fantástico, o indivíduo fica nu perante aos demais e vem o ridículo. Eu, conhecendo e abdicando da fantasia, me ponho nu aos olhos de todos sem que ninguém o veja. Me faço tão insignificante, tão perdido e embaçado que me esquecem e ignoram. E é nessa condição de ostracismos que assisto à festa dos felizes, com um sorriso sem graça de quem se embaraça com uma pergunta infantil.
Nada tenho com a vida, nem com os outros. Quero apenas tangenciar tudo isso. Na trigonometria da vida não passo de uma incógnita que não devia estar ali.

19 de Janeiro

“A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.” C.D.A.

Se muito não me engano, é esta a ordem desses versos. A verdade deles invade e converte tudo o que há de vazio e contrário. O que é a poesia senão o que não se pode falar, o que não se diz? Por melhor que o poeta seja, nunca atingirá, em escrita, o nível do que realmente pensa. O que pensa perde propriedade ao converter-se em matéria. Não vale a pena perdê-lo, não vale a pena comunicá-lo – o ridículo de não se dizer. Mais vale sonhar a escrita que a escrever, transformar o pensamento em outro pensamento, em sonho, para que nada se perca. A poesia é incomunicável. Somos psicologicamente tortos. Amar? Mais vale sonhar amar, sonhar a poesia da vida, que querer vivê-la, torto no seu canto.
Estas idéias que me vêm ao lembrar de qualquer trecho de obra lida, servem apenas para iludir e passar o tempo. O que me importa concordar ou não? Se me fez me esquecer de mim, já então é alto e magnífico. São matérias como essas que consolam os iletrados da vida, os que, se olham pela janela, demoram demais e se perdem no esquecimento de si. É melhor não fazer nada, apenas entreter-se para que a vida passe ao de leve, sem tocar o suficiente que a faça sentir.
Inexistir.

05 de Fevereiro

Mais uma vez. Se eu não me agüento, por que tento? É chegada a hora da escolha, a hora que eu temia e sabia que iria chegar. Preciso escolher entre o que sou e o que finjo ser. Estou fadado à solidão. Se assim deve ser, não será o álcool ou outra coisa qualquer que me trará paz: tudo me traz sofrimento. Me entregarei à solidão. Se tenho que ser o “estranho”, serei, sim, estranho e estrangeiro de um lugar do qual nunca deveria ter saído, nem chegado, nem nada!
Não sei lutar, não sei fazer, não consigo agir! Sou regado a insucessos, fracassos e tudo o que não tentei. A ineficácia me persegue. Me sinto entregue a mim e a um deus em que não acredito, aprendendo a negar a minha própria existência e a cad[...].
Chega! Esse tempo acabou. Vou me acostumar ao que sou e à vida que tenho. Continuarei sofrendo, mas não fugirei de mim mesmo. Eu, que só tenho a solidão, como posso me deixar sozinho? Uma grande vontade de largar tudo me abate, mas devo largar apenas meu fingimento, minha vaidade, minha gloriosa vontade de infinitude! Preservarei a mim, meu corpo vivo, enquanto a alma soergue o esforço de sofrer: problema de quem a faz sofrer, pois minha alma já não é minha.
Estou sozinho e sem defesas. Não sei como, mas preciso me adaptar.

13 de Fevereiro

Retomo hoje minha escrita, após fitar o cinza perdido da desesperança. Chegado aqui e há já alguns dias, odeio tudo isso. Me é difícil aceitar os parâmetros de uma cidade grande, de uma metrópole. Não me sinto satisfeito com nada, e, nesses dias tedientos, só o Velho Lopes me diverte. As suas manias e sua maneira de estar sempre quieto, calado, fumando, pesam sobre mim como a consciência minha de dias vindouros. Serei eu também assim, no futuro? Se me ponho a perguntar, vejo que o sou no presente... No lugar do fumo, a minha mania é a auto-flagelação, o meu vício é a abdicação do que creio, minha velhice é a minha incapacidade de ação.
As coisas se põem como sempre: mal. Eu as encaro como sempre: sem encarar. Fugindo, fugindo, até aonde o precipício permitir. Hei de cair? Não sei, nem os deuses sabem que são deuses, nem os homens sabem que o são. Que a Solidão se torne a melhor companheira, é o que preciso. Mas, para isso, terei que deixar o Velho Lopes. O que importa? Se eu não me importo a mim, por que diabos os outros me importariam? Importa-me estar só, ficar sozinho, nesse momento em que não sei o que fazer. A náusea por tudo o que é vivo é o legado que me fica de dias que não entendo. Não sei como, quando, nem por que fazer. E vivo, sem saber, e, porventura, sem fazer.
[...]
Não sei quanto vale a realidade. Para ser sincero, sempre julguei ser a "realidade sonhada" a única relidade que vale a pena: podemos moldá-la, alterá-la, fazer o que quiser. A "realidade real", não. Ela existe, independe de nós, confronta-nos e, ou se é forte e vence-a, ou se é fraco e sucumbe-se a ela. Eu pertenço ao segundo grupo. Prevalece em mim a vontade de não fazer nada, de não ser nada, de não pensar, ver, acreditar, confiar, em nada! Sou assim desde quando? Não sei, desde que me lembro de mim.
Quantas flores vemos no caminho para depois, quando a vamos colher, estarem pisadas, murchas, venenosas? Assim é a vida real, nos ilude a todo momento. Enquanto sonhamos, se sonhamos, não temos esses problemas. O que é o sonho? O cidadão normal responderá: "Algo que queremos muito que se torne realidade." Ora, se o sonho é uma realidade não realizada não é sonho; logo, não passa de uma vontade insatisfeita, um desejo reprimido. Sonho é uma situação imaginária, aonde quem imagina já desiste antes de querer ver como real. O sonho, para ser sonho, tem que ser impossível. Como exemplo, posso sonhar ser Cristo ou outra figura qualquer, pois que nunca a serei. Mas, no entanto, não posso sonhar com um bom emprego, se partir da premissa de que lutarei para isso. Só posso sonhar o que sei de impossível realização. A realidade não me pertence: é de todos e, por isso mesmo, de ninguém. Os meus sonhos, esses sim, são meus, impossíveis, quiméricos e, por serem uma realidade apenas em mim, insofismáveis. É como embalar uma criança morta ao colo: fria, estática, mas linda como outra qualquer criança, e sem a obrigação da vida.
Não sei se é em verdade isso aquilo que penso, ou apenas uma maneira de me desculpar dos meus fracassos e obter remédio na introspecção. Eu mesmo não me sei. Mas que quem leia não se prenda em julgar, que cada um crie uma concepção do real que lhe aprouver. Eu me refugio na minha, pois me apraz a desistência, a desilusão e a saudade do que nunca será.

14 de Fevereiro

O Velho Lopes tem me ensinado: não existe presente. A vida humana se perfaz apenas em passado e futuro. Presente é apenas um nome equivocado que damos a um tempo que não sabemos, não entendemos, não vivemos. Estranho? Talvez o Velho Lopes o seja, para mim não. Não vivemos o presente: vivemos uma nostalgia do passado e uma perspectiva do futuro. Os nossos atos são o resultado do que fomos e os alicerces do que seremos, nunca o que somos. Temos em vista sempre um tempo outro.
Ah, como tudo é imperfeito! Como não compreendemos as coisas pelas quais passamos, as vivências que somos obrigados a ter...! Ah, ninguém iliba o sofrimento de ter nascido. Para alguns a vida é bela, maravilhosa, divertida!... O que levam do que são é que não sei. Se nesse momento sou um determinista, o sou com gosto... não me importa as opiniões de Sartre. Se eu fosse totalmente livre, meus atos não teriam conseqüências. Mas não, estou preso às conseqüências de meus atos e, se me prendo a elas antes de agir, desisto da ação antes de me prender. Gosto de me subtrair, pois que assim esperam menos de mim e eu não espero nada dos outros. Tudo o mais não é nada.
Há o tédio, a incapacidade, a incompreensão, o desejo insatisfeito, o desconforto, o desespero, a vontade de findar que não passa de mais um sofrimento por não ser o suicídio o que quero. O que quero é inexistir, apagar cada passo meu na areia branca que não pisei, mas sonhei pisar; cada beijo na boca que me fiz crer minha, mas que nunca foi; cada palavra solta ao vento sem que ninguém a escutasse. Quero me apagar não só da memória das pessoas, mas do mundo. Não quero um único átomo meu, uma única atividade neuronial que me demonstre. Quero sumir.
Não posso e essa vontade de não-ser, esse sonho de não sonhar, não passa de mais um sofrimento, de mais uma suspensão do eu, de mais uma subtração das capacidades do ego! O meu desejo é meu inimigo, eu sou meu inimigo e, assim, não tenho contra quem lutar. O meu humanismo é falsificado, minha literatura é falsificada, meu pensar é falsificado. A única coisa que é verdadeira em toda minha substância é o "desviver". Sem isso, tudo o mais é falso. Não conheço nada que não tenha caído ou se mostrado falso à minha passagem, nada dura, nada se eterniza; tudo se dissolve em mim. Eu acumulo o pó dos dias no casaco que não uso, molho a face com as lágrimas que não choro, grito alto com a boca que não abro; sempre em sonho. E tudo isso é muito mais real se o pó o mundo visse, as lágrimas sentisse e o grito arrebentasse seus tímpanos, é mais real para mim porque acontece em mim, livre de outros; não se falsifica, sou eu e meus sentimentos.
Nem a morte me serve. Estou fadado a esse carrasco chamado Vida, até que o mar das coisas incertas me afogue totalmente nele e eu viva como quem vegeta, ou morra, como quem vive.