"Teu ato mais sublime é colocar outro em sua frente." William Blake

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Bar

Numa noite sem cessar eu procurava
De mãos frias, vazias, penitentes,
Em garrafas indecorosas que se uniam

Ao mistério incompreensível de cada coisa,
Uma coisa maior que em vão dissesse
A própria coisa perdida e interrogada.

E como um surto negro e inconseqüente
Se apossasse do meu ser ensimesmado,
Me afundei no mar maior de uma cadeira

Que sozinha havia, inconsolada,
Sem chegar à resposta gratuita
Que acalentasse esse meu ego delinqüente.

Submerso assim em devaneios
Me levei inconsciente a outras plagas,
Sonhos menores de um sempre mesmo sonho,

Incapaz da concretude que eu queria.
Adormeci meu corpo nu cansado
Num carrossel atroz de mil volteios

A espera de uma luz que em claridade
Me retirasse a estátua de mim mesmo,
Esquecido e de tudo renegado.

Um trajeto mudo e áspero me emudecera
Em que sob o halo da manhã chegada
Apresentou-me o Além-da-realidade.

Tudo o que eu julgava desconexo
Mostrou-se claro na verdade que se grita.
Mas a palavra felizmente debruada

Não permite o caminho então reverso
E a noite novamente foi caindo
Num gesto hermético e a si inverso.

Nota

As tentativas literárias postadas até aqui são, talvez com uma única exceção, referentes à idade máxima dos 18 anos do autor. São textos em sua maioria escritos entre os 16 e 18 anos, e é justamente em função da tenra idade em que foram escritos que o blog leva o adolescente título de "Lobisomem Juvenil".
A partir desta data serão postados textos mais novos em meio aos antigos. Não se alterará o título do blog, pois o "lobisomem juvenil" que havia antes ainda subsiste, um intricado lobo da estepe, um rebento último da linhagem de Harry Haller. O homem sempre foi e será o lobo de si mesmo; não me contextualizem.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Tempo

Rente à casa da minha infância
corria um rio.
A casa era de madeira e vida a escorrer,
o rio não sei de que era.
Saía de mãos dadas à alma que não era minha
e observava-me a correr no campo.
As flores lançavam-me perfumes de outros tempos,
balançando-me em músicas antigas
que ninfas divertidas insistiam em cantar.

Sempre que voltava à casinha da minha infância
não era a ela que voltava,
pois já não estava lá.
Havia sempre só o rio
a se fingir a passear.
Eu o seguia, como se segue uma vida sem propósitos,
e encontrava um porto, uma caverna, uma gruta...
E fazia o que quer que achasse de casinha,
e fazia dos meus muitos anos a minha infância.
E assim fui sendo,
caçador de sonhos que fazia meus,
perdendo a cada dia a esperança de ser outro.
Só o rio continuava,
deus úmido indiferente à minha passagem.

Ano Novo Chinês (carta em verso)

Tentei ajudar,
mas percebo que quem precisa de ajuda
sou eu.
Não sei o que fazer:
estou perdido entre os sonhos que criei,
todos ruínas, poeira, fracasso
do meu próprio existir.
Como sair daqui? O que fazer?
E, do fundo de uma garganta condenada,
a resposta sempre igual:
Eu não sei!

Tanto dei as mãos aos outros
que agora já as não tenho mais.
Quem afagará a minha face?
Quem alisará os meus cabelos?
Quem me encontrará em meus olhos?
E quem apagará a lembrança do que foi?
Ninguém, ninguém fará nada.
Não haverá a esperança de um novo dia com o sol posto,
apenas o sol posto.
Quero chorar e gritar.

Os ratos saem para a virada do ano,
que já está de cabeça para baixo;
os ratos roem a roupa do rei de Roma.
O mito reverbera em pêlos.
Os ratos são meus irmãos,
pertenço a eles.
Preciso de ajuda,
mas não preciso de ninguém.

Períodos

Opressão.
Ânsia de verso, cor ou sol.
Paisagens deslumbrantes que se afiguram onde nunca sairão.
Lembranças de páginas que não disseram nada,
e de outras que disseram tudo,
não dizendo nada também.
Vontades; desejos; lembranças!
Nostálgico e incandescente passado,
que já passou;
presente desprezível e desprezado,
ausência de substância;
Futuro,
medo de sabê-lo,
desejo de adiá-lo.
Imensa vontade de inexistir;
preguiça de ser eu.

A rua que tantas vezes vejo,
as pessoas com as quais sou obrigado a conviver,
os pensamentos
- o moralismo cristão! -
que me forçam a escutar,
e as situações geradas
por esse encadeamento de elementos sinistros!

Compreender o que eu não compreendo
não depende da compreensão de ninguém.

[Sou uma sombra...]

Sou uma sombra, ou, antes,
um projeto dela,
que nem a sombra chego a ser.
Sou a fumaça das fábricas, dos escapes dos automóveis,
do cigarro que mulheres fumam.
Sou, talvez não a fumaça,
mas a dispersão dela,
pois a fumaça realmente dita não passa de metáfora em busca
de um conceito que não sei expressar.
Sim, sou a dispersão.
A agudez do som que ninguém ouviu,
O cinza do dia chuvoso em que ninguém saiu de casa.
Sou tudo o que é apenas por obrigação de o ser;
Sou tudo o que é e passa sem contemplação;
Sou tudo e a nebulosidade estática de ser tudo:
A ataraxia de um deus morto
e a revolta de um morto-vivo.

domingo, 11 de abril de 2010

Do Livro do Desassossego, o sossego que não tenho*

* trechos escritos a partir de reflexões advindas da leitura deste íntimo diário de Bernardo Soares


“Deus é o existirmos e isto não ser tudo.”

Procuro um deus plebeu e um plebeu que não seja deus. Essa busca se me chega em noites insones, manhãs angustiantes e tardes, como esta, tediosas. Sei que tal coisa não se pode encontrar, mas me consolo em sonhá-la. Assim, crio deuses do degredo humano e homens menos arrogantes que um deus. Me faço outro na imensidade única de ser tudo: nesses momentos, sou o Deus Criador e moldo o mundo à minha imagem e semelhança. Faço com que tudo me convenha, e essa animosidade de tudo faz-me feliz a minutos.
Há o momento, porém, que terei que acordar, descer da escada alta do sonho e saber-me eu, ridículo e infeliz. Eu, o fraco, o estranho, o covarde, o vil, gasto os meus dias criando mundos e me achando Deus? Tenho pena de mim! Da minha ignorância e covardia ao viver, do meu medo da convivência. Sou como o mendigo que não venceu o orgulho para pedir uma esmola e preferiu, por ser menor o incômodo, morrer de fome a ter um pão seco que engula. Se pedisse, talvez nem um gole d’água lhe dessem. É um pessimismo crônico, mas não sei como me livrar dele e tudo vejo por esta ótica. Quem se faz presente quando grito, se gritasse? Quem me estenderia a mão, se eu a procurasse? Quem faria por mim qualquer coisa, destituído do sobretudo da obrigação ou da casaca pesada do dever moral? Quem me ajudaria por mim? Não encontro, nem encontrarei quem o faça. Se alguém vem aos meus gritos, é só para que me cale; se alguém me dá a mão, é porque incomoda vê-la estendida, como um trapo imundo. Tudo o que se me fazem fazem apenas até onde alcança a dimensão do senso estético. Tudo é apenas um esforço para que a normalidade reine, o ser estranho que invade a casa dos homens é um estorvo, uma monstruosidade que deve ser suprimida.
Sozinho, choro e rio do que faço, das situações em que essa vida adversa a mim me coloca. Eu, tão despreparado para o convívio, sou obrigado a conviver da pior maneira e ainda ter a consciência disso. Se fazem ausentes todas as cartas do baralho e eu me vejo um coringa fracassado por não lhe haver baralho. Rio de mim mesmo, da minha roupa de palhaço e dos meus modos tão pouco convencionais, e me creio pobre e débil. À certa altura, pergunto-me do fundo mórbido do interior de mim: há alguém como eu no mundo? Há quem padeça do desgosto e da ridiculeza de não saber agir? E me calo sem respostas. Encontro em Bernardo Soares, lisboeta da Baixa, figura de livro, uma alma, senão igual, parecida com a minha, e leio nele as minhas angústias. A sua voz, aparentemente tão pouca coisa, encarnou, será? a substância de milhares de vozes que se calam? Nem eu, nem ele, podemos saber. Ainda que ele tenha sido sozinho, o transcorrer de mais de meio século trouxe-lhe uma alma irmã da sua, em angústia e depressão constantes que alimentam essa capacidade incrível de se fazer sofrer.

“Amar-me é ter pena de mim.”

Às vezes pareço fazer-me coitado. Quando tomo consciência disso, mais coitado me sinto, por saber que coitado o sou e não só o pareço. Preencho com pena a nulidade do meu vazio interior, e concedo a mim o amor que me não dão. Não sei se de amor se trata, pois não o suspeito de forma alguma. Mas não me importa saber, não me interessa que saiba. Sinto-me, e isto basta para que sofra.
Se há quem me sinta, sente-me com pena. Ama-me? Como posso eu saber, se não sei se sentem, se não sei como amam? Nada posso saber, nem quero saber, exceto o saber único de saber-me nada.
Sei das pessoas do meu convívio forçado como aparentam-me ser, e me pergunto se também elas me tomam como pareço que sou. Fazem-me bem ou mal? E o que deveria ter por bem ou mal? Basta que vejam, e eu existo fora de mim. Me perco, porque não compreendo o que me há de exterior. Pairo, disperso como eu só, entre as múltiplas pessoas do cotidiano. Me altero para o convívio.
Encaram-me com pena, pena e comiseração. Questionam minha presença para sentirem-se bem consigo mesmos, para que façam a boa ação do dia. Pensando ajudar-me, criam-me um imenso desconforto e me querem, não o pano velho que sou, mas o linho que por vezes pareço ser. Volto, e sou molambo; o pano podre que se rasga ao toque pungente da criança sem medo. Querem-me não o que sou, desiludem-se e têm pena: pobre diabo que não soube ser!

“Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver.”

Os meus sonhos, que não sei ao certo se são meus, e que apenas suspeito serem sonhos, quase não se mostram fora de mim. Ao menos não padecem do desplante sujo da mácula alheia. Se transbordam de mim, preenchem um quarto vazio que não é o meu, pintam e fazem desse quarto uma semelhança de mim, sem que se perceba que não seja eu.
Os meus sonhos são sonhados apenas para sonhá-los e permanecerem sonhos. Sonhos são impossíveis. Sonhos possíveis são apenas desejos, veleidades que se querem reais. Querer é trair o que se sonha, pois que assim o despimos, o sonho, daquilo que o torna supremo: sua impossibilidade e a infinitude dentro dela. São os sonhos infinitos dentro da impossibilidade de serem reais, pois a fantasia, matéria do sonho, quem faz somos nós, alheios a todo o resto que nos não convém.
Os meus sonhos, quando muito, os ritmo, coloco-lhes cadência, cor, forma, dentro de uma poesia qualquer da vida não vivida que é minha. Não me importa a poesia, como conjectural autor, pois que a tenham quem achar por bem lê-la. Importa-me o sonho que nela vai, que deposito na esperança de que se um dia não houver mais sonhos, podem sonhar, ao lê-la novamente, aquele mesmo sonho. Por isso, o que escrevo não é para que a vida me galardoe por isso, antes, porém, para que eu sobreviva diminuindo o muito que sinto e desse pouco subtraído confirme o tédio de dias vindouros esperado sem qualquer esperança, quando o que existe não me diz nada e o que pode existir também não. Nesses dias, deixarei de ser o profeta que não sou e o historiador sombrio de minhas emoções, deixarei tudo isso para viver um presente falso, baseado em meandros de outrora. Mas sonharei tudo novo, tudo como nunca foi sonhado; ainda que seja o mesmo sonho, sonhá-lo-ei outro por eu já não ser mais eu, senão eu-outro que acabei por ser.

“Tudo vem de fora e a mesma alma humana não é porventura mais que o raio de sol que brilha e isola do chão onde jaz o monte de estrume que é o corpo.”

Ao ver o meu reflexo nos azulejos de uma cozinha qualquer, ocorre-me que aquela imagem é outra que não seja eu. Olho-me, àquela imagem, recurvada, arqueada, com a cabeça levemente voltada para baixo e o corpo frágil fazendo a linha fina e deselegante projetar-se perpendicularmente à bancada naqueles mesmo azulejos que me devolvem.
Se aquele desenho desajeitado e débil é o retrato físico do meu corpo, seriam os meus atos, também, desajeitados e débeis, retrato anêmico de minha alma? Esta indagação, que me ocorreu na cozinha enquanto comia, menos por fome que por educação para com quem me preparou o lanche, acompanhou-me até a este quarto emprestado que tenho feito meu. Seriam os meus atos reflexo idêntico do que hermeticamente sou? Pobre de mim, se assim o fosse! Sei a todos eles falsos, fingidos, levemente rebuscados com a ironia com a qual os corôo. A minha alma é velada mesmo para mim, mal a suspeito. Os meus atos são tortos e incapazes de retratar qualquer coisa que não seja ridícula. Os meus atos, quando ajo, não são meus, mas da situação que os fazem; não sou nem a boca por que falam, nem o gesto pelo qual se mostram, sou apenas o movimento muscular inconsciente, acionado por não sei que neurônios dispensáveis, que faz com que o corpo viva e os atos saiam por ele. Quando assim procedo, estou longe, fora daqui e de mim, em galáxias outras e em sistemas solares que a astronomia nunca descobrirá. Nesses momentos me divido: de um lado o eu físico e biológico, de outro o anímico e racional. O primeiro é feito a cada instante, o segundo se faz eternamente e nunca deixa de ser.

“Benditos os que não confiam a vida a ninguém.”

Sim, benditos sejam os que se fazem sem a confiança dar aos que os querem feitos.
Não pertenço a uma multidão, a um grupo ou qualquer outro ajuntamento de gente; pairo sobre o que quer que seja e apenas aparento ser. Ninguém me sabe eu, todos me sabem outro. Tangencialmente vivendo, apenas esbarrando na soleira quando deveria entrar, nunca deposito em outros olhos o espelho de minha alma que são os meus. Moldo-os para que não falem. No entanto, perscruto a essência alheia e julgo, quando realmente quero, encontrar o saber idiota que o outro me quer esconder. Que cada ser se faça segundo a sua própria amargura, pois que a mim também não me vêm ajudar. Sei, porém, que chegada a hora, movido por um altruísmo cristão que me faz ter nojo de mim, sou o primeiro a dar a mão, afagar os cabelos e oferecer a amizade sólida que não me quiseram dar.
Quando as brumas se me fecham o espírito e a tempestade sufoca-me o peito, quando o tédio é corrosivo e a lucidez qualquer coisa que me quer enlouquecer, nesses momentos terríveis estou sozinho, não há nenhuma amizade que me retire a escuridão. Estou sozinho, nu diante a toda maldade que me toma, toda a doença que me mata. Ao meu auxílio nenhum ser se dispõe a vir. Os meus espasmos sou eu que limpo, o meu sangue sou eu que vejo, a minha carne sou eu que rasgo; sozinho. E se acaso o espírito me quiser abandonar, não haverão flores nem velas, haverá apenas o choro de quem nunca esteve ali, haverá somente a compreensão dos ausentes.
Não me confio a ninguém, porque não há em quem confiar. Se sou triste, o mundo não o deixa de ser. Se sou doente, só quero que essa minha doença não se alastre e que o mal da solidão não corroa as vísceras dos que ainda sabem amar.

“Em geral sou uma pessoa com quem os outros simpatizam, com quem simpatizam, mesmo, com um vago e curioso respeito. Mas nenhuma simpatia violenta desperto. Ninguém será nunca comovidamente meu amigo. Por isso tantos me podem respeitar.”

Eu sou amigo de alguém, ou é esse alguém mais amigo meu que eu dele e simplesmente retribuo por obrigação a mesma amizade? Talvez sequer exista Amizade. O que há é apenas uma confluência de afinidades e interesses mútuos que permitem uma relação de associação com o outro até chegada a hora em que os lucros já não rendem mais.
Se me acusam de triste, não sei do que me acusam. A tristeza está por fora, eu apenas a observo com o escrutínio cético para com os homens. A tristeza invade-me, mas reside em vós. Por vezes, penso que a única pessoa que se possa dizer feliz sou eu, justamente por perceber a tristeza que há no mundo e continuar vivendo, continuar sendo eu, e contribuindo com esta grande e maior tristeza. Triste é existir, ainda que a existência não pareça tristeza.

“A minha vida é como se me batessem com ela.”

O estudo de mim mesmo se me veta mesmo ao fim. Por mais que me esforce, nunca chegarei a resultado nenhum do que sou. Tudo passa pela ótica falsa da imprecisão e do falso entendimento. Sou fugidio mesmo para mim.
Outorgo a um qualquer desvão psicológico meu essa atenção insalubre que me concedo; passo-a a outros inexistentes. Há quem se faça em linhas tortas e há os que se fazem tortos em linhas certas. Não sei aonde chego quando não chego a lugar nenhum diferente do qual saí. Por isso, não sei para que saio. Quando volto, sinto a mágoa mental da intelectualidade fracassada e o meu orgulho misto de desespero reverbera pelas paredes do quarto sem vida seu canto infantil. Eu calo e escuto esse canto gelado que me envolve. Quantos deuses mato!
Não me compreendo e não sei para que vivo, se vivo na incompreensão daquilo que sou. Sofro com todo o meu eu exterior, colado a mim com o siamês que me espanca. É ele a vida que me bate, a minha vida que me bate. E eu sou o desvegetar inútil de uma hora triste.