"Teu ato mais sublime é colocar outro em sua frente." William Blake

terça-feira, 10 de maio de 2011

O Cavaleiro da Resignação

Sono. Só tenho sono.
Arrependo-me do ter-sido.
Quem me dera retornar ou esquecer.
Voltar atrás,
refazer cada um dos perdidos movimentos
às avessas.
Jogar o corpo para trás
e embalar-me no tecido furado
das redes do infinito.
Inclinar-me,
jogar-me,
Fugir do tempo
para não conviver com a
mentira que não fui.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Abril despedaçado

O livro Abril despedaçado, de Ismail Kadaré, mostrou-se ainda melhor que a adaptação cinematográfica, a qual eu já gostara muito. A figura de Diana Vorps talvez marcará lugar em minha memória por algum tempo, não sei muito bem como, mas senti o seu olhar, um olhar líquido: navegável, mas sempre a ocultar muito mais coisas do que as que se revelam sobre a superfície. O título do livro desenha o abril vivo-morto de Gjorg, em que cada dia é um dos derradeiros pedaços de sua vida que se desprendem na esperança inútil por Diana. O que fez daquele abril despedaçado não foi em última instância o fim da bessa ou o medo do gjaks, mas o prazo dado pela morte para que voltasse a ver a vida (Diana). No fundo, um livro todo voltado para o Kanun e para a morte, tem como mote real os olhos de uma mulher, expressa, melhor dizendo, seu mote nos olhos de uma mulher. A excelência de Kadaré neste livro, o ponto máximo de sua construção poética, foi, para além da estória bastante interessante, a habilidade em fazer de uma personagem secundária (Diana) e de uma estória também secundária dentro da trama do romance (a viagem do casal Vorps) o ponto alto da universalidade da obra, pois é a perspectiva da morte (que de início finge ser o aspecto universal) que vai ao encontro de Diana e faz o romance assumir ares de tragédia. Podemos dizer que em Abril despedaçado a morte é um acessório, algo banal que só se eleva a estatuto trágico a partir do contato com a vida (ou a possibilidade dela), que reside em Diana. A vida que subiu aos Alpes, ao tomar contato com a morte, resignifica-a por ser a morte de Gjorg, e padece; à morte, por outro lado, é impossível qualquer transmutação, é inevitável e cobra da vida o sangue que esta lhe deve. Se não fosse Diana, a vida, portanto, a estória de Gjorg, nada teria de extraordinário. A vida dá sentido à morte, e o significado disso escapa aos cálculos sanguíneos do Kanun. Kadaré mostra que não ficamos indiferentes a um olhar.

Aplica-se a Abril despedaçado um trecho de uma carta de Kafka, endereçada a um tal Oskar Pollak: ‘Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo?’

Abril nos acorda para a vida e para a impossibilidade de vivê-la, por vezes, em função de eventos que nos escapam. Abril nos acorda, e faz ver tudo com olhos novos, com olhos vivos: olhos de Diana.

domingo, 17 de abril de 2011

História em V atos - Ato III

Cheiro de terra molhada. Pardais na plantação de arroz. Atiradeira alavancada com o garrote a espichar o ar. O susto. Não era matá-lo o que eu queria. Morte da minha infância, matei e morri sem querer. O pardal caído, pescoço quebrado, papo cheio de arroz. A vida se abria e me mostrava a faca de dois gumes que vazaria sempre cada uma de minhas ações. O pássaro morto; eu roto e puído no que sem querer me responsabilizei.
Nunca esquecerei essa imagem, a cisão definitiva entre a inocência e o pecado. A morte, a morte do pássaro foi meu ingresso para o mundo.

domingo, 3 de abril de 2011

História em V atos - Ato II

Sangro por uma primeira linha. A primeira letra é o primeiro toque, macular o que é branco é compromisso sério demais para que não doa a idéia de começar mal. Por isso, quase nunca, não sei começar. Abrir um texto é, para mim, uma das tarefas mais árduas, uma responsabilidade enorme perante mim e perante o outro. É como nos apaixonamos: os beijos, as carícias, o sexo. Quando nos apaixonamos realmente e, como no meu caso, se tem idéia de quanto se é sujo, sente-se medo de tocar aquela que amamos, medo de deitar-se com ela e, esfregando a sujeira no que julgamos puro no outro, sobe como que o pavor de torná-la tão suja quanto se é.
Lembro-me da primeira vez em que estive com uma mulher. Não, na época não me julgava sujo, pelo contrário, era limpo demais. Tive medo, medo de parecer ridículo, medo de não saber o que fazer das mãos, medo de ter medo demais para sentir verdadeiramente a sua pele. Guardei sempre comigo essa dúvida: terei sido ridículo então? Em momento algum ela reagiu como se eu o tivesse sido, também não reagiu como se eu o não tivesse. Na semana seguinte, N. me disse que estava com outro. Sabia que ela não gostava de mim. Pode ser que eu tenha sido ridículo. Foi então que deixei de brilhar nos serões da varanda; me recolhi, aos poucos e sem sombra de tranquilidade, ao quarto de despejos da minha refletida rejeição.

terça-feira, 29 de março de 2011

História em V atos - Ato I

No início, pensei que fosse possível. Houve dia em que julguei ser alguém; houve vez em que quis ser alguém. Lembro-me ainda dos primeiros anos na escola, a certeza de que para mim se reservava um rumo certo, o tempo em que as tias velhas, a família nos serões na varanda, dirigiam benevolentes para mim os olhares e me faziam acreditar em qualquer coisa, em qualquer coisa que poderia ser. Sim, para mim houve um tempo, um tempo futuro que sorvia deitado ao sol, estirado no chão quente de ardósia do terreiro, com os olhos fechados para que o suor para eles não escorresse da testa, e eu me via como o homem que hoje desconheço, completamente apto para o convívio entre os seus.
Todos na vida temos ilusões, o que seria de nós sem elas? E o que a face oculta da memória insiste em esconder no instante tenebroso do presente, não é mais que essa torpes divagaçõezinhas, esses planos do passado que se eclipsaram pela maneira inadaptada que hoje temos, ou ao menos a tenho eu, de lidar com o seu próprio tempo, presente e imediato. Mais que as reprimendas, que as admoestações do passado, que as lutas em que fui terrivelmente esmagado, esses sonhos irrealizados e irrealizáveis me formam, me preenchem o espírito com a angústia de não-ser. Hoje me reconheço como o aborto monstruoso de tudo aquilo que não fui, de tudo aquilo que não sou, e o espelho que toco e me desconhece, grita-me essa verdade pelos olhos perdidos de um rosto que não era para ser o meu.

domingo, 27 de março de 2011

Absconso ritual IV


Fotografia: Natan Henrique de Faria e Sales

Onde andará aquele garoto, aquele mesmo de olhos negros, meio lerdo, que me acompanhava nas discriminações da escola? Onde, onde andará? Onde estará Alexander? Até onde sei, pode estar numa cidade qualquer com os pais ou morando sozinho em Bucarest. Onde quer que esteja, é quase certo que não se lembra mais de mim.

Alexander era filho único. Emigrou da Romênia com os pais. Nunca lhe perguntei nada sobre Chausesco. Mas também, de que valia ter perguntado: com toda certeza ele não foi morto nem maltratado por ele! E, no fim, é sempre isso que importa, é sempre isso que procuramos conseguir: não ser morto. O resto (se gosta ou se não gosta, se é feliz ou não...), o resto é acessório, o resto é enfeite, o resto é o que não é importante.
Estive uma vez na casa de Alexander. Não ficamos em seu quarto jogando vídeo-game. Alexander não tinha quarto. Dormia na sala. Eu não tinha casa, dividia um apartamento com um monte de gente que entrava e saía: um dia dormia com alguém ocupando a cama ao lado da minha, no outro já não estava mais e era outra pessoa que chegava. Mais tarde também pude dormir na sala, mas isso foi mais tarde (depois de eu conseguir um vídeo-game).
Mas falava do Alexander, da vez que estive em sua casa. Antes de chegarmos, paramos num café, ele me pagou uma coca-cola. Ele me falava da Romênia, eu lhe falava do Brasil. Tenho certeza de que não acreditou em uma única palavra que lhe disse sobre o carnaval. Eu também não acreditei que Bucarest fosse linda. Saímos do café, seguimos pela rua da escola até a avenida, andamos por lugares que já não me lembro e chegamos à casa de Alexander. Pegamos a bola e fomos para uma praça.
Era uma praça grande, algumas crianças brincando, uns rapazes jogando bola. Nós ali, inventando um pretexto para nos aproximarmos, inventando um pretexto para nos sentirmos iguais, pois ambos intrusos ali. Quando cansamos, Alexander me pagou um suco (ele me pagava porque queria um suco para ele, como eu não tinha dinheiro para comprar o meu, e ele não queria que eu ficasse olhando, pagava para mim, mesmo eu recusando excessivamente).
Alexander então voltou para a sua casa, para a sua sala. Eu voltei para a pensão, com inveja da sala e do minúsculo apartamento dos pais de Alexander. Queria que minha família também estivesse habilitada assim. Cumprimentei-o normalmente nos dias seguintes, sem que o nosso passeio diminuísse a distância entre nós. Víamo-nos todos os dias, e, excetuando o sorriso sincero, era tudo indiferente.
Hoje, num canto qualquer do interior do Brasil, tapando os ouvidos para os sons de uma noite que para alguns é festa, sozinho no quarto, bate uma saudade danada do Alexander. Onde, onde estará Alexander?
Não sei. Mas hoje, hoje ele estará comigo.

Nunca estamos sozinhos

Tive meses de uma prostração sombria. Uma grande má vontade para com tudo. Um desejo, recalcado, de me subtrair à vida. Abandonei-me, senti vontade de correr e não mais parar, quis escorregar pelo beco sujo que é o destino. Mas, no momento decisivo, sobreveio o medo. O medo de me deixar cair e encontrar no fundo a minha imagem, o meu rosto contorcido num sorriso irônico, o meu olhar opaco a me dizer que era ainda ilusão.
Retorno. Não sei se para mim ou se para a vida. Ronda-me ainda a imprecisão do passo que não dei. Há mais de mil maneiras de se arrepender! Mas uma idéia, como uma agulha, espeta-me a consciência: não importa como, nunca estamos sozinhos.