terça-feira, 10 de maio de 2011
O Cavaleiro da Resignação
Arrependo-me do ter-sido.
Quem me dera retornar ou esquecer.
Voltar atrás,
refazer cada um dos perdidos movimentos
às avessas.
Jogar o corpo para trás
e embalar-me no tecido furado
das redes do infinito.
Inclinar-me,
jogar-me,
Fugir do tempo
para não conviver com a
mentira que não fui.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Abril despedaçado
O livro Abril despedaçado, de Ismail Kadaré, mostrou-se ainda melhor que a adaptação cinematográfica, a qual eu já gostara muito. A figura de Diana Vorps talvez marcará lugar em minha memória por algum tempo, não sei muito bem como, mas senti o seu olhar, um olhar líquido: navegável, mas sempre a ocultar muito mais coisas do que as que se revelam sobre a superfície. O título do livro desenha o abril vivo-morto de Gjorg, em que cada dia é um dos derradeiros pedaços de sua vida que se desprendem na esperança inútil por Diana. O que fez daquele abril despedaçado não foi em última instância o fim da bessa ou o medo do gjaks, mas o prazo dado pela morte para que voltasse a ver a vida (Diana). No fundo, um livro todo voltado para o Kanun e para a morte, tem como mote real os olhos de uma mulher, expressa, melhor dizendo, seu mote nos olhos de uma mulher. A excelência de Kadaré neste livro, o ponto máximo de sua construção poética, foi, para além da estória bastante interessante, a habilidade em fazer de uma personagem secundária (Diana) e de uma estória também secundária dentro da trama do romance (a viagem do casal Vorps) o ponto alto da universalidade da obra, pois é a perspectiva da morte (que de início finge ser o aspecto universal) que vai ao encontro de Diana e faz o romance assumir ares de tragédia. Podemos dizer que em Abril despedaçado a morte é um acessório, algo banal que só se eleva a estatuto trágico a partir do contato com a vida (ou a possibilidade dela), que reside em Diana. A vida que subiu aos Alpes, ao tomar contato com a morte, resignifica-a por ser a morte de Gjorg, e padece; à morte, por outro lado, é impossível qualquer transmutação, é inevitável e cobra da vida o sangue que esta lhe deve. Se não fosse Diana, a vida, portanto, a estória de Gjorg, nada teria de extraordinário. A vida dá sentido à morte, e o significado disso escapa aos cálculos sanguíneos do Kanun. Kadaré mostra que não ficamos indiferentes a um olhar.
Aplica-se a Abril despedaçado um trecho de uma carta de Kafka, endereçada a um tal Oskar Pollak: ‘Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo?’
Abril nos acorda para a vida e para a impossibilidade de vivê-la, por vezes, em função de eventos que nos escapam. Abril nos acorda, e faz ver tudo com olhos novos, com olhos vivos: olhos de Diana.
domingo, 17 de abril de 2011
História em V atos - Ato III
Nunca esquecerei essa imagem, a cisão definitiva entre a inocência e o pecado. A morte, a morte do pássaro foi meu ingresso para o mundo.
domingo, 3 de abril de 2011
História em V atos - Ato II
Lembro-me da primeira vez em que estive com uma mulher. Não, na época não me julgava sujo, pelo contrário, era limpo demais. Tive medo, medo de parecer ridículo, medo de não saber o que fazer das mãos, medo de ter medo demais para sentir verdadeiramente a sua pele. Guardei sempre comigo essa dúvida: terei sido ridículo então? Em momento algum ela reagiu como se eu o tivesse sido, também não reagiu como se eu o não tivesse. Na semana seguinte, N. me disse que estava com outro. Sabia que ela não gostava de mim. Pode ser que eu tenha sido ridículo. Foi então que deixei de brilhar nos serões da varanda; me recolhi, aos poucos e sem sombra de tranquilidade, ao quarto de despejos da minha refletida rejeição.
terça-feira, 29 de março de 2011
História em V atos - Ato I
Todos na vida temos ilusões, o que seria de nós sem elas? E o que a face oculta da memória insiste em esconder no instante tenebroso do presente, não é mais que essa torpes divagaçõezinhas, esses planos do passado que se eclipsaram pela maneira inadaptada que hoje temos, ou ao menos a tenho eu, de lidar com o seu próprio tempo, presente e imediato. Mais que as reprimendas, que as admoestações do passado, que as lutas em que fui terrivelmente esmagado, esses sonhos irrealizados e irrealizáveis me formam, me preenchem o espírito com a angústia de não-ser. Hoje me reconheço como o aborto monstruoso de tudo aquilo que não fui, de tudo aquilo que não sou, e o espelho que toco e me desconhece, grita-me essa verdade pelos olhos perdidos de um rosto que não era para ser o meu.
domingo, 27 de março de 2011
Absconso ritual IV
Fotografia: Natan Henrique de Faria e Sales
Alexander era filho único. Emigrou da Romênia com os pais. Nunca lhe perguntei nada sobre Chausesco. Mas também, de que valia ter perguntado: com toda certeza ele não foi morto nem maltratado por ele! E, no fim, é sempre isso que importa, é sempre isso que procuramos conseguir: não ser morto. O resto (se gosta ou se não gosta, se é feliz ou não...), o resto é acessório, o resto é enfeite, o resto é o que não é importante.
Estive uma vez na casa de Alexander. Não ficamos em seu quarto jogando vídeo-game. Alexander não tinha quarto. Dormia na sala. Eu não tinha casa, dividia um apartamento com um monte de gente que entrava e saía: um dia dormia com alguém ocupando a cama ao lado da minha, no outro já não estava mais e era outra pessoa que chegava. Mais tarde também pude dormir na sala, mas isso foi mais tarde (depois de eu conseguir um vídeo-game).
Mas falava do Alexander, da vez que estive em sua casa. Antes de chegarmos, paramos num café, ele me pagou uma coca-cola. Ele me falava da Romênia, eu lhe falava do Brasil. Tenho certeza de que não acreditou em uma única palavra que lhe disse sobre o carnaval. Eu também não acreditei que Bucarest fosse linda. Saímos do café, seguimos pela rua da escola até a avenida, andamos por lugares que já não me lembro e chegamos à casa de Alexander. Pegamos a bola e fomos para uma praça.
Era uma praça grande, algumas crianças brincando, uns rapazes jogando bola. Nós ali, inventando um pretexto para nos aproximarmos, inventando um pretexto para nos sentirmos iguais, pois ambos intrusos ali. Quando cansamos, Alexander me pagou um suco (ele me pagava porque queria um suco para ele, como eu não tinha dinheiro para comprar o meu, e ele não queria que eu ficasse olhando, pagava para mim, mesmo eu recusando excessivamente).
Alexander então voltou para a sua casa, para a sua sala. Eu voltei para a pensão, com inveja da sala e do minúsculo apartamento dos pais de Alexander. Queria que minha família também estivesse habilitada assim. Cumprimentei-o normalmente nos dias seguintes, sem que o nosso passeio diminuísse a distância entre nós. Víamo-nos todos os dias, e, excetuando o sorriso sincero, era tudo indiferente.
Hoje, num canto qualquer do interior do Brasil, tapando os ouvidos para os sons de uma noite que para alguns é festa, sozinho no quarto, bate uma saudade danada do Alexander. Onde, onde estará Alexander?
Não sei. Mas hoje, hoje ele estará comigo.
Nunca estamos sozinhos
Retorno. Não sei se para mim ou se para a vida. Ronda-me ainda a imprecisão do passo que não dei. Há mais de mil maneiras de se arrepender! Mas uma idéia, como uma agulha, espeta-me a consciência: não importa como, nunca estamos sozinhos.
