"Teu ato mais sublime é colocar outro em sua frente." William Blake

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Um bicho da terra tão pequeno

É como se faltasse algo. A doença, a proximidade da morte, o amor insatisfeito: tudo a mesma coisa: falta, ausência, abolição. No princípio, acreditava. Acreditei. Depois a dúvida, a covardia de pegar o futuro pela cauda. Então vieram tempos de infortúnio. De que adianta uma vida intelectual, se não se vive? De que adianta jogos de palavras, se não se comunica? A repetição, a repetição; a ocasião, não. Impossível reconciliar o outro. E em meio a dilacerações tão grandes para minha vaidade, imponentes do alto do meu orgulho, versos de Camões:

"No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"

Existe alguma porta que me leve para a ação?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Absconso ritual VI


Caravaggio


Estética do Desapego

Beleza, o que seria que me vem?
Nome qualquer que confio ao que agrada,
Se me agrada? Estética de ninguém?
Ou catarse grega experimentada
Como só Narciso concebe bem?
O ideal é que se possa ver
Com olhos longínquos o apresentado.
Bem está em amar e não querer,
Em vigiar para não ser tentado.
Pois a angústia pelo que não consegue
É fado que não há quem o sossegue,
É o desejo inverso a si, fracassado.
---- O que gosto e abdico com destreza
---- É o que se faz presente, se é Beleza.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Absconso ritual V

Francisco Goya


Metafísica Satânica

Quantas vezes é um sonho possível?
Quantos sonhos são possíveis? Um? Dois?
Quantas vezes ilude-se o visível?
Quantos sonhos ficam para depois?

Oh! respondam-me, poetas malditos!
Digam-me do que é feita a Ilusão!
Eu, louco, que comungo dos seus ritos,
Que escrevo incapaz, com sangue na mão,

Os salmos satânicos que aprendi,
A descrição do inferno em que caí
Desde o dia em que me vi a viver!

Quero que me digam essa verdade:
Se é o sonho ou a realidade
Responsável por eu sempre perder!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ironia e Humor em Brás Cubas

Machado de Assis é um escritor sem lugar: sua obra não é datada, nem se encaixa nas prateleiras da Escolas literárias. Como sem lugar e não-datado, se o Rio da virada do século XIX para o XX aparece em sua produção com seus morros, seus negros, a rua do Catete e toda aquela “nobre” fidalguia? É sem lugar e não-datado por não se restringir ao retrato do Rio, nem se deixar determinar às cegas pelas regras de estéticas vigentes. A obra é universal e as técnicas empregadas em sua confecção não se limitam às do período do autor: em Brás Cubas observa-se prenúncios do Realismo mágico (haja vista o autor defunto dessas memórias, algo que, mutatis mutandis, seria realizado muito depois por Juan Rulfo em Pedro Páramo) e artifícios outros que só viriam a ser utilizados na segunda metade do século XX (ver capítulo LV, por exemplo). Seu tema não é estático, dado de um momento do processo histórico (como o Naturalismo de Zola e sua fotografia da luta de classe, algo tão estático que o próprio Engels ao autor de Germinal preferia Balzac), é tema volúvel que percorre os tempos, pois é o próprio homem, em sua ruína moral e pessimismo. E o lance de gênio de Machado, neste ponto, consiste na sapiência de não chamar para si o papel do padre velho, com seu dedo admoestador, a recriminar os homens e suas eras, mas, talvez mesmo por certa carga de ceticismos, consiste antes em não opor de chofre valores diversos aos que vão ali se desenhando nos atos dos personagens.

O seu sistema é sutil, opera por via semelhante à comunicação indireta que Kierkegaard utilizou e teorizou em seus textos, e as suas armas não são outras que as do filósofo dinamarquês: o humor e a ironia.

Memórias Póstumas de Brás Cubas, como é próprio de Machado, não é um romance de heróis. Se alguns o criticaram – e curiosamente ainda há os que o criticam – por ter retratado a sociedade branca, culta e fidalga, esquecendo-se dos negros e de onde ele mesmo viera, é porque não compreendem a lição do autor. Como mencionamos, o seu método é similar ao de Kierkegaard, à comunicação indireta. Em linhas gerais, o filósofo dinamarquês concebia a existência dividida em três estádios: o estético, o ético e o religioso. O estético, que é o que aqui nos interessa, é aquele onde se concentram os românticos, criaturas fechadas em si mesmas, que negam a vida saudando a morte em literatura. Para Kierkegaard, a forma de criticá-los e fazer com que “saltem” para o ético, o estádio moral, era dirigir a eles discursos muito semelhantes aos seus, de modo que vissem, por esse distanciamento literário, a sua própria condição refletida.

Se Machado de Assis não se vale de heróis negros, modelos exemplares de uma moral sã, denunciando sem meias palavras a hipocrisia da época, tampouco nos vem com heroínas fidalguias. O seu personagem é um anti-herói e nele carregam-se as cores da falta de moral, do pouco compromisso com o outro e até para com a própria vida, troçando de tudo e de todos, rindo de si mesmo e até do leitor. A crítica do homem branco e rico é o próprio branco e rico quem a faz; a sociedade é criticada por sua própria boca.

A ironia e o humor são marcas correntes: pouco interessa ao autor, Brás Cubas, o agrado ou não do leitor, a obra, em primeira leitura, parece ser o que lhe vale (referimo-nos aqui ao seguinte trecho do prólogo assinado pelo próprio Brás Cubas: “A obra em si mesma é tudo: se te agradou, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradou, pago-te com um piparote, e adeus”). Mas, detendo-se um pouco nela, pode-se destilar o humor e a ironia machadiana. Ora, se a obra agrada, é porque à maneira de ver de Brás Cubas o leitor fino é “fino” tanto quanto ele, e assim fica a crítica ao que lê, posto a ombros com este anti-herói; se não agrada, se o leitor não compartilha dos desmandos desse “brejeiro”, paga-se com um piparote, pancada que é o quadro da realidade social apresentada na obra. De qualquer forma, o leitor não escapa, e só lhe resta valer-se do humor para encarar o eterno rapaz que foi esse galho da árvore dos Cubas.

sábado, 9 de julho de 2011

Culpa e mal-estar: trecho de Lúcio Cardoso

"Dormi e acordei sob a impressão de estranho mal-estar; sentimento de um destino obscuro e truncado. Responsabilidade em destinos alheios, sensação de culpa e de total incapacidade para erguer a vida a um nível sereno e justo. (Este nível sereno, justo - realmente, fundamentalmente eu o desejei alguma vez na minha vida?). Profundeza de certas impressões - como uma aura que circulasse no mais íntimo do ser - e que não se constituíram ainda em sentimento firme. Agitamo-nos no sono ou semi-acordados - e as vagas se sucedem sobre nós, arrastando os secretos detritos que povoam nosso inconsciente, a vida nas trevas da alma, o que em última análise deve constituir nosso supremo movimento diante da morte: o medo incaracterizado do animal, palpitando às expensas da consciência, crivado de raios escarlates de remorso e pressentimento, como veios súbitos riscando o cerne escuro das pedras."

Lúcio Cardoso, Diário.

domingo, 26 de junho de 2011

Fumar

Quase dez minutos de intervalo
para minha consciência.
Trago, espero,
a fumaça para meus pulmões.
Depois espirro o trago por entre os dentes
e me divirto com o baile
que o sopro põe a dançar diante mim.
Então, inevitável a

tosse, tosse, tosse,
tusso, tusso, tusso.

Volta a consciência:
merda de tosse!
merda de cigarro!
merda de pulmões!

Pára. E trago de novo
o fumo para meu peito.
Aquilo foi uma dorzinha?
Do lado esquerdo das costas?
Sim, pode ser do pulmão...

Uma merda!

Tosse, tosse, tosse,
tusso, tusso, tusso.

Tenho que parar com isso.
Jogo fora.

Volta a consciência:
merda de vida!
merda de tédio!
merda de dia!

Culpa dela. Por onde anda?
E algo estoura em meu peito!
Será aquela dorzinha?
A do lado esquerdo das costas?
Não, essa é outra: de novo o coração...

Uma merda!
A outra doía menos
e desta me distraía...

Tudo é mesmo uma grande merda!

Me dá um cigarro?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Sobre "Persona"





Li esses dias um artigo que me levou a rever Persona. O artigo relaciona o filme com alguns conceitos de Jung e Kierkegaard. Foi a parte sobre Jung que me despertou algumas reflexões além das contidas no tal artigo. Bergman parece jogar com dualismos: Elizabeth, a atriz, procura a sua verdade, procura-se, pelo silêncio, anulando a palavra que sempre lhe foi artifício, tanto no palco quanto na vida; Alma, a enfermeira, reservada, se encontra (confrontando-se), pela palavra, saindo da posição de reserva que até então se mantinha. A palavra é, ao mesmo tempo, capaz de ocultar a primeira e revelar a segunda. Dizia que Alma se encontra confrontando-se... Na verdade, quando Elizabeth e Alma vão para a casa de praia, dirigem-se para lá com o único propósito de fundirem-se, de tornarem-se uma mesma persona. Por isso, acho que podemos dizer que Alma somente se confronta pela presença do outro, de Elizabeth, de modo que é o outro que faz com que ela se torne ela mesma, para si e para o outro, fundindo-se com ele (no caso, com ela). O silêncio é o que permite a comunicação, a comunicação sincera, o esvaziar-se para o outro. O silêncio de Elizabeth força Alma a falar, de início a falar mais para si mesma que para Elizabeth, e aos poucos, como se ganhasse confiança por não ouvir reprovações, nem por ver cortada a sua palavra (o que sempre acontece no momento exato em que estamos para dividir algo com alguém), tendo certeza de que pode falar até o fim, pois é a única voz naquele ambiente, conta a Alma a orgia que praticara. O silêncio chamando a verdade. As posições acabam por se inverter: Alma, que deveria assistir a Elizabeth, converte-se em paciente, e a última começa a estudá-la. Alma seria uma espécie de inconsciente despertado pelo silêncio de Elizabeth e estudado por ela. No entanto, neste estudo, que de início é uma distração para Elizabeth, há o risco daquele que o empreende se perder, pois se deixa seduzir por ele, e o inconsciente, ou seja, Alma, sabe coisas sobre o consciente mesmo que este não as diga (ex: Alma sabe da relação de Elizabeth com o filho, mesmo esta nada lhe contando). Nesse ponto o inconsciente começa a incidir no consciente, até fundirem-se e tornarem-se uma coisa só (não sei, talvez chamada “eu”). Já nas cenas finais Alma tenta fazer com que Elizabeth repita: “Nada”. O consciente, Elizabeth, é incapaz de fazê-lo, pois ter consciência é existir e a existência não afirma o nada. O inconsciente (Alma), no entanto, é capaz de fazê-lo, pois é a negação do primeiro, e afoga a verdade (orgia) no nada para continuar vivendo sua persona. Talvez a pergunta final seja: o que fazer? Afogar a verdade que nos espeta no nada e continuar vivendo tentando fechar os olhos para ela, como fez Alma, ou assumir-se como o ser que é, em todo o seu desespero, experimentando a verdade angustiante de si mesmo e viver-se, viver como si mesmo, ainda que isso seja mais penoso? Não darei uma resposta, pois há quase um ano essa questão me incomoda. Parece-me haver um dilema moral nisso tudo, e percebo-o com relação a Alma, personagem que me é mais interessante. A persona é a máscara com a qual nos apresentamos ao outro, à sociedade em geral, e temos alguma consciência dela, acho até que boa consciência dela; mas, por outro lado, não conhecemos nossa verdadeira natureza, e nem nós mesmos sabemos o que ocultamos detrás da máscara, detrás da persona. Tendo Alma agido de forma tão diferente de sua persona, ela seria, na verdade, aquela que empreendeu o ato, aquela que estava agindo no momento da orgia seria a Alma de verdade, ou, ao contrário, a verdadeira Alma é a que se arrepende daquilo e a persona passaria a ser ela mesma, a natureza de Alma? Tendo em mente estas duas esferas, a natureza humana do sujeito individual e sua persona, será possível julgá-la, não segundo a moral social, mas segundo uma ética própria, uma ética que pertencesse a Alma? Pois, caso a condenássemos, agir com ética seria agir segundo a persona, e não segundo si mesmo, segundo sua própria natureza. No entanto, se a absolvêssemos, todo o resto de sua existência teria de ser condenada, pois agiu segundo sua natureza própria apenas na orgia.
O filme-poema que abre Persona sugere um sacrifício com a morte do carneiro e uma expiação com a cena da crucificação. Seria alguma sugestão para Alma e Elizabeth (note que acima me referi apenas a Alma, mas o mesmo vale para Elizabeth; apenas acho Alma mais interessante, por ser mais comum)?
Outra coisa interessante que reparei no filme-poema: no fim, o garoto olha direto para a câmera, como se estivesse a olhar o espectador, e passa a mão no que seria o foco da lente, como se passasse a mão no rosto do espectador; depois o ângulo muda e vemos que ele passa a mão nos rostos desfocados de Alma e Elizabeth. Bergman está dizendo que também o espectador é uma persona. No final do filme podemos ver o próprio Bergman e a sua câmera, filmando a última cena, como se mostrasse que o filme é também uma persona. Somos, a persona que aparentamos ser, tão irreais (ou reais) quanto um filme.