"Teu ato mais sublime é colocar outro em sua frente." William Blake

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Paisagem de espírito nº1

"- Você devia ir a um colégio de rapazes, só pra ver. Experimenta só - falei. - Estão entupidos de cretinos, e você só faz estudar bastante para poder um dia comprar uma droga dum cadilaque, e você é obrigado a fingir que fica chateado se o time de futebol perder, e só faz falar de garotas e bebida e sexo o dia inteiro, e todo mundo forma uns grupinhos nojentos. Os caras do time de basquete formam um grupinho, os camaradas que jogam bridge formam um grupinho. Até os que são sócios da porcaria do Clube do Livro formam um grupinho. Se você tenta bater um papo inteligente...

"-Escuta aqui - ela disse. - Muitos rapazes encontram mais do que isso no colégio.

"- Concordo! Concordo, alguns deles encontram mesmo. Mas eu só encontro isso. Compreendeu? Esse é que é o caso. É exatamente o meu problema. Não encontro praticamente nada em nada. Estou mal de vida. Estou péssimo.

"- E está mesmo."

J. D. Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio. 14ª Ed. Rio de Janeiro: Editora do Autor, p. 129.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Um bicho da terra tão pequeno

É como se faltasse algo. A doença, a proximidade da morte, o amor insatisfeito: tudo a mesma coisa: falta, ausência, abolição. No princípio, acreditava. Acreditei. Depois a dúvida, a covardia de pegar o futuro pela cauda. Então vieram tempos de infortúnio. De que adianta uma vida intelectual, se não se vive? De que adianta jogos de palavras, se não se comunica? A repetição, a repetição; a ocasião, não. Impossível reconciliar o outro. E em meio a dilacerações tão grandes para minha vaidade, imponentes do alto do meu orgulho, versos de Camões:

"No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"

Existe alguma porta que me leve para a ação?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Absconso ritual VI


Caravaggio


Estética do Desapego

Beleza, o que seria que me vem?
Nome qualquer que confio ao que agrada,
Se me agrada? Estética de ninguém?
Ou catarse grega experimentada
Como só Narciso concebe bem?
O ideal é que se possa ver
Com olhos longínquos o apresentado.
Bem está em amar e não querer,
Em vigiar para não ser tentado.
Pois a angústia pelo que não consegue
É fado que não há quem o sossegue,
É o desejo inverso a si, fracassado.
---- O que gosto e abdico com destreza
---- É o que se faz presente, se é Beleza.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Absconso ritual V

Francisco Goya


Metafísica Satânica

Quantas vezes é um sonho possível?
Quantos sonhos são possíveis? Um? Dois?
Quantas vezes ilude-se o visível?
Quantos sonhos ficam para depois?

Oh! respondam-me, poetas malditos!
Digam-me do que é feita a Ilusão!
Eu, louco, que comungo dos seus ritos,
Que escrevo incapaz, com sangue na mão,

Os salmos satânicos que aprendi,
A descrição do inferno em que caí
Desde o dia em que me vi a viver!

Quero que me digam essa verdade:
Se é o sonho ou a realidade
Responsável por eu sempre perder!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ironia e Humor em Brás Cubas

Machado de Assis é um escritor sem lugar: sua obra não é datada, nem se encaixa nas prateleiras da Escolas literárias. Como sem lugar e não-datado, se o Rio da virada do século XIX para o XX aparece em sua produção com seus morros, seus negros, a rua do Catete e toda aquela “nobre” fidalguia? É sem lugar e não-datado por não se restringir ao retrato do Rio, nem se deixar determinar às cegas pelas regras de estéticas vigentes. A obra é universal e as técnicas empregadas em sua confecção não se limitam às do período do autor: em Brás Cubas observa-se prenúncios do Realismo mágico (haja vista o autor defunto dessas memórias, algo que, mutatis mutandis, seria realizado muito depois por Juan Rulfo em Pedro Páramo) e artifícios outros que só viriam a ser utilizados na segunda metade do século XX (ver capítulo LV, por exemplo). Seu tema não é estático, dado de um momento do processo histórico (como o Naturalismo de Zola e sua fotografia da luta de classe, algo tão estático que o próprio Engels ao autor de Germinal preferia Balzac), é tema volúvel que percorre os tempos, pois é o próprio homem, em sua ruína moral e pessimismo. E o lance de gênio de Machado, neste ponto, consiste na sapiência de não chamar para si o papel do padre velho, com seu dedo admoestador, a recriminar os homens e suas eras, mas, talvez mesmo por certa carga de ceticismos, consiste antes em não opor de chofre valores diversos aos que vão ali se desenhando nos atos dos personagens.

O seu sistema é sutil, opera por via semelhante à comunicação indireta que Kierkegaard utilizou e teorizou em seus textos, e as suas armas não são outras que as do filósofo dinamarquês: o humor e a ironia.

Memórias Póstumas de Brás Cubas, como é próprio de Machado, não é um romance de heróis. Se alguns o criticaram – e curiosamente ainda há os que o criticam – por ter retratado a sociedade branca, culta e fidalga, esquecendo-se dos negros e de onde ele mesmo viera, é porque não compreendem a lição do autor. Como mencionamos, o seu método é similar ao de Kierkegaard, à comunicação indireta. Em linhas gerais, o filósofo dinamarquês concebia a existência dividida em três estádios: o estético, o ético e o religioso. O estético, que é o que aqui nos interessa, é aquele onde se concentram os românticos, criaturas fechadas em si mesmas, que negam a vida saudando a morte em literatura. Para Kierkegaard, a forma de criticá-los e fazer com que “saltem” para o ético, o estádio moral, era dirigir a eles discursos muito semelhantes aos seus, de modo que vissem, por esse distanciamento literário, a sua própria condição refletida.

Se Machado de Assis não se vale de heróis negros, modelos exemplares de uma moral sã, denunciando sem meias palavras a hipocrisia da época, tampouco nos vem com heroínas fidalguias. O seu personagem é um anti-herói e nele carregam-se as cores da falta de moral, do pouco compromisso com o outro e até para com a própria vida, troçando de tudo e de todos, rindo de si mesmo e até do leitor. A crítica do homem branco e rico é o próprio branco e rico quem a faz; a sociedade é criticada por sua própria boca.

A ironia e o humor são marcas correntes: pouco interessa ao autor, Brás Cubas, o agrado ou não do leitor, a obra, em primeira leitura, parece ser o que lhe vale (referimo-nos aqui ao seguinte trecho do prólogo assinado pelo próprio Brás Cubas: “A obra em si mesma é tudo: se te agradou, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradou, pago-te com um piparote, e adeus”). Mas, detendo-se um pouco nela, pode-se destilar o humor e a ironia machadiana. Ora, se a obra agrada, é porque à maneira de ver de Brás Cubas o leitor fino é “fino” tanto quanto ele, e assim fica a crítica ao que lê, posto a ombros com este anti-herói; se não agrada, se o leitor não compartilha dos desmandos desse “brejeiro”, paga-se com um piparote, pancada que é o quadro da realidade social apresentada na obra. De qualquer forma, o leitor não escapa, e só lhe resta valer-se do humor para encarar o eterno rapaz que foi esse galho da árvore dos Cubas.

sábado, 9 de julho de 2011

Culpa e mal-estar: trecho de Lúcio Cardoso

"Dormi e acordei sob a impressão de estranho mal-estar; sentimento de um destino obscuro e truncado. Responsabilidade em destinos alheios, sensação de culpa e de total incapacidade para erguer a vida a um nível sereno e justo. (Este nível sereno, justo - realmente, fundamentalmente eu o desejei alguma vez na minha vida?). Profundeza de certas impressões - como uma aura que circulasse no mais íntimo do ser - e que não se constituíram ainda em sentimento firme. Agitamo-nos no sono ou semi-acordados - e as vagas se sucedem sobre nós, arrastando os secretos detritos que povoam nosso inconsciente, a vida nas trevas da alma, o que em última análise deve constituir nosso supremo movimento diante da morte: o medo incaracterizado do animal, palpitando às expensas da consciência, crivado de raios escarlates de remorso e pressentimento, como veios súbitos riscando o cerne escuro das pedras."

Lúcio Cardoso, Diário.

domingo, 26 de junho de 2011

Fumar

Quase dez minutos de intervalo
para minha consciência.
Trago, espero,
a fumaça para meus pulmões.
Depois espirro o trago por entre os dentes
e me divirto com o baile
que o sopro põe a dançar diante mim.
Então, inevitável a

tosse, tosse, tosse,
tusso, tusso, tusso.

Volta a consciência:
merda de tosse!
merda de cigarro!
merda de pulmões!

Pára. E trago de novo
o fumo para meu peito.
Aquilo foi uma dorzinha?
Do lado esquerdo das costas?
Sim, pode ser do pulmão...

Uma merda!

Tosse, tosse, tosse,
tusso, tusso, tusso.

Tenho que parar com isso.
Jogo fora.

Volta a consciência:
merda de vida!
merda de tédio!
merda de dia!

Culpa dela. Por onde anda?
E algo estoura em meu peito!
Será aquela dorzinha?
A do lado esquerdo das costas?
Não, essa é outra: de novo o coração...

Uma merda!
A outra doía menos
e desta me distraía...

Tudo é mesmo uma grande merda!

Me dá um cigarro?